O Último Serviço de Ana

A primeira quebra do silêncio naquela noite não foi um toque suave, um sussurro furtivo ou o ranger de madeira antiga. Era uma sinfonia estranha, como se pequenas rodas deslizassem lentamente pelo corredor, rompendo a monotonia da rotina.

Susana, envolta na alquimia da cozinha, preparava o jantar quando um som inusitado percorreu o corredor em frente ao seu apartamento. Um ruído irregular, como se uma roda estivesse emperrada, girava, travava e girava novamente, numa dança perturbadora que ecoava em sua mente.

Com o fogo reduzido e a mente silenciada, ela sussurrou para si mesma, tentando descobrir o que um vizinho poderia estar arrastando àquela hora. O som desapareceu ao final do corredor, antes que ela tivesse a chance de abrir a porta e desvendar o mistério que a intrigava.

Nos dias que se seguiram, a curiosidade de Susana foi diminuindo. Porém, numa noite preguiçosa de sábado, as inquietantes rodas retornaram.

Estava confortavelmente sentada no sofá com seu companheiro, focados na escolha de um filme, quando o eco das rodas ressoou novamente. Desta vez, o ritmo era mais lento e intencional.

— Lembra daqueles carrinhos antigos de hotel? — comentou ele, com um tom nostálgico. — Aqueles que as camareiras usavam para transportar toalhas ou o serviço de quarto?

As palavras a deixaram inquieta, um frio percorreu sua espinha. O Sonnenhof, que antes foi um elegante hotel, ainda mantinha seus corredores largos, portas pesadas e as marcas do tempo que nenhuma reforma pôde apagar.

O barulho parou diante do apartamento. Susana, hesitante, aproximou-se da porta.

Silêncio.

Quando sua mão tocou a maçaneta, as rodas recomeçaram a girar.

Ela abriu a porta.

Uma mulher caminhava de costas pelo corredor, vestida com um vestido escuro sob um avental branco, os cabelos presos em um coque baixo. Suas roupas pareciam ter saído de um passado distante, como se fossem uniformes de camareiras em fotografias empoeiradas.

Empurrando um carrinho metálico, a mulher carregava sobre ele algo grande e longo, coberto por um lençol que insinuava um corpo humano. Uma sensação de paralisia tomou conta de Susana, a respiração suspensa.

O tecido balançava com o movimento do carrinho, e uma mancha escura e úmida destacava-se em uma das extremidades.

— Moça? — Susana tentou chamá-la, mas a camareira não se manifestou.

— Está tudo bem? — insistiu, mas a mulher continuou sua caminhada, impassível.

Por um breve momento, Susana chegou a pensar que fosse uma encenação ou alguém gravando um vídeo, mas tudo parecia real demais para ser uma brincadeira.

Determinada, Susana correu em direção a ela.

A camareira virou à direita no final do corredor.

Quando Susana chegou ao mesmo local, não havia mais ninguém.

Apenas uma parede sólida e impenetrável.

Não havia porta, escadas ou qualquer outra saída que pudesse ter levado a mulher a desaparecer.

No chão, três gotas de cera preta formavam uma pista enigmática.

No dia seguinte, impulsionada pela curiosidade, Susana decidiu conversar com uma das residentes mais antigas do edifício. No Sonnenhof, eventos estranhos quase nunca passavam despercebidos. Sempre havia alguém que conhecia uma história, lembrava de um detalhe esquecido ou possuía mais informações do que o comum para quem não havia vivido naquela época.

— Você viu a Ana — Afirmou.

— Quem era ela? — indagou Susana, intrigada.

A mulher hesitou antes de responder.

Ana trabalhou como camareira no Sonnenhof enquanto o prédio ainda estava em funcionamento como um hotel. Pouco se sabia sobre sua história; não havia registros de sobrenome ou endereço. Todos a conheciam apenas como Ana.

Ela era uma funcionária discreta. Todos os dias, Ana chegava cedo ao trabalho, sempre pontual e dedicada, realizando suas tarefas com atenção e cuidado. Com o passar das semanas, começaram a surgir uma série de acontecimentos estranhos no ambiente de trabalho, alterando drasticamente sua percepção do local.

Com o tempo, Ana começou a relatar para seus colegas de trabalho uma série de fenômenos perturbadores que presenciava dentro do prédio. Contava que encontrava camas completamente desfeitas em quartos que, conforme os registros, não estavam ocupados por ninguém naquele momento. Além disso, havia pegadas úmidas espalhadas sobre os tapetes. Outro fenômeno inexplicável eram os espelhos dos quartos, que alguns amanheciam sujos com marcas de mão.

Essas estranhas ocorrências despertaram a curiosidade de Ana, que começou a se tornar cada vez mais atenta e, ao mesmo tempo, desconfiada daquele lugar. Cada história se tornava mais intrigante e assustadora, repleta de mistérios que ela não conseguia decifrar. Tudo isso seguiu em relativa tranquilidade até uma manhã que ninguém jamais esqueceria. Nessa manhã fatídica, Ana estava no terceiro andar, quando sentiu uma quase irresistível necessidade de investigar um dos quartos recém desocupados.

Ao abrir a porta daquele quarto, o que encontrou causou um arrepio imediato em sua espinha – no chão, velas pretas estavam acesas, formando um pentagrama. No centro do pentagrama, uma cadeira estava coberta por um lençol branco, como se alguém a tivesse preparado para uma cerimônia macabra. A atmosfera ali dentro era pesada, sufocante, quase como se o ar tivesse se tornado denso com mistério e medo.

A Ana, tomada pelo terror, correu em direção à gerência para relatar o que acabara de presenciar. Ao retornar ao quarto, acompanhada por alguns funcionários, viu que o local estava totalmente limpo e organizado. Não havia vestígios de velas, pentagrama ou cadeira coberta. Nada indicava que, poucos minutos antes, algo incomum tivesse ocorrido naquele espaço.

Após essa experiência, Ana passou a perceber uma presença constante e inexplicável. Ela declarou, com um medo crescente, que sentia como se alguém ou algo a seguisse incansavelmente pelos corredores do hotel, acompanhando cada um de seus passos.

— E o que aconteceu com ela? — questionou Susana, com o coração acelerado.

— Desapareceu.

A gerência do hotel informou que Ana havia solicitado sua demissão. Contudo, ninguém a viu deixar o local. Seus itens pessoais permaneceram no armário dos funcionários e, alguns dias depois, seus parentes apareceram no hotel, angustiados, questionando sobre seu paradeiro. Ninguém conseguiu responder ou, ao menos, ninguém estava disposto a fazê-lo.

Na noite anterior ao desaparecimento, alguns hóspedes relataram ter ouvido um carrinho passando pelo terceiro andar. Uma funcionária afirmou ter visto Ana empurrando-o em direção à antiga passagem de serviço.

A passagem foi fechada durante uma reforma e, segundo os desenhos atuais, ficava exatamente atrás da parede onde a camareira desaparecera diante de Susana.

Naquela mesma noite, Susana decidiu retornar ao corredor.

Seu companheiro tentou dissuadi-la, mas a necessidade de respostas a movia. Aproximou-se da parede e passou a mão sobre o papel envelhecido. Sentiu uma saliência oculta perto do rodapé.

Ao pressioná-la, um estalo ecoou e parte da parede se abriu alguns centímetros, revelando uma porta estreita.

Um odor de mofo, madeira apodrecida e cera queimada se espalhou da escuridão.

Susana acendeu a lanterna do celular e entrou.

A antiga passagem de serviço permanecia oculta atrás dos apartamentos, estreita demais para que duas pessoas caminhassem lado a lado. O chão estava coberto de poeira, exceto por duas linhas paralelas que se estendiam pelo corredor.

Marcas de rodas.

Ela seguiu as marcas até o final da passagem, onde encontrou um pequeno cômodo. Restos de velas pretas formavam uma figura quase apagada no chão. Em um canto, um carrinho metálico coberto por um lençol a aguardava.

O mesmo que vira na noite anterior.

Susana se aproximou cautelosamente.

A forma sob o tecido ainda lembrava um corpo.

Estendeu a mão, hesitante.

Antes que pudesse levantar o lençol, ouviu algo estranho.

Virou-se.

Ana estava parada na entrada.

Dessa vez, não havia carrinho à sua frente.

Seu rosto era pálido como a lua, e os olhos estavam fixos no volume coberto. A camareira levantou lentamente uma das mãos e apontou para o lençol.

Susana, com coragem renovada, puxou o tecido.

Não havia um corpo.

Apenas um uniforme dobrado, um crachá enferrujado com o nome Ana e um pequeno caderno.

Na última página, uma frase apressada estava escrita: “Mandaram que eu levasse o hóspede até aqui. Disseram que ele estava morto. Mas ele abriu os olhos debaixo do lençol.”

Uma respiração ecoou.

Não vinha de Ana.

Vinha de dentro do carrinho.

O metal rangeu sob um peso invisível.

Quando levantou os olhos, a camareira já havia desaparecido, deixando apenas o vazio inquietante.

Velas ao redor começaram a acender uma a uma, como se um ritual estivesse prestes a iniciar.

Susana correu pela passagem, sem olhar para trás. Empurrou a porta oculta, voltou ao corredor e se trancou em seu apartamento, o coração pulsando como um tambor.

A administração, em um gesto de encobrimento, fechou novamente a passagem e afirmou que não encontrou carrinho, velas ou caderno. Mas, nas sombras, Ana continuava a vagar, eternamente presa em seu último serviço.

Próximo
Próximo

Um ano e meio no Residencial Sonnenhof — Parte II: as experiências no sótão