Um ano e meio no Residencial Sonnenhof — Parte II: as experiências no sótão
Desde a minha chegada ao Residencial Sonnenhof, o sótão sempre provocou minha curiosidade.
Havia uma atração peculiar por aquele espaço raramente visitado, oculto sob o telhado inclinado e rodeado por histórias que poucos moradores conhecem plenamente. Essa fascinação foi tão profunda que inspirou o nome do meu site: Relatos do Sótão.
Quando o Sonnenhof ainda era um hotel, o sótão foi um sofisticado salão de festas. Mesmo hoje, é fácil imaginar como eram aquelas noites. As janelas de madeira, a antiga lareira, a sacada com vista para o jardim e, ao longe, as luzes da cidade criam um cenário que parece ter ficado preso em outra época.
Apesar do passar do tempo, o local ainda preserva sua beleza.
Entretanto, há algo ali que nunca consegui compreender.
Mesmo em silêncio, sentia necessidade de observar ao meu redor.
Antes de me inteirar das histórias do sótão, costumava visitá-lo frequentemente. Durante um período em que trabalhava remotamente, decidi levar meu notebook para o salão. Queria mudar de ambiente e desfrutar da manhã em um lugar diferente.
Estabeleci-me perto de uma das janelas e permaneci ali das oito ao meio-dia.
O salão estava deserto. A luz iluminava o piso e os poucos móveis antigos através das janelas de madeira. Do lado de fora, avistavam-se árvores do jardim e uma parte da cidade ao longe.
Era um cenário bonito e, à primeira vista, tranquilo.
Ainda assim, não consegui me concentrar como esperava.
De tempos em tempos, sentia uma vontade de olhar para trás.
Não ouvi passos.
Não vi ninguém.
Parecia que algo se movia no salão sempre que voltava minha atenção ao notebook.
Interrompia meu trabalho e observava ao redor.
As cadeiras estavam em seus devidos lugares.
As janelas permaneciam fechadas.
A lareira estava apagada.
Nada parecia estar diferente.
A sensação, no entanto, não desaparecia.
Era como dividir o espaço com alguém que preferia permanecer oculto.
Outra experiência ocorreu durante o meu primeiro mês no residencial.
Era tarde ensolarada quando fui à sacada do sótão para apreciar a vista. De repente, a pesada porta se fechou abruptamente atrás de mim.
Não me recordo de haver vento suficiente para provocar aquilo.
Quando tentei abrir a porta, percebi que estava trancada. O impacto fez o pino de segurança descer do lado de dentro.
Eu fiquei trancada na sacada.
Tive que telefonar para meu parceiro e pedir que subisse até o sótão para me ajudar a abrir a porta.
Naquele instante, busquei uma explicação simples.
Uma porta antiga.
Um mecanismo sensível.
Talvez uma corrente de ar que não percebi.
Isso pareceria mais lógico.
Um tempo depois, meu companheiro subiu sozinho ao sótão à noite. Ele disse que precisava de sossego para pensar.
Ele tinha certeza que a porta da sacada estava fechada.
Enquanto estava no salão, ouviu um movimento inesperado.
A porta se abriu sozinha.
Não devagar.
Abriu com tanta força que bateu na parede.
Não havia ninguém do lado de fora.
Não havia vento forte que explicasse o que ocorreu.
Depois daquela noite, começamos a encarar aquele lugar de maneira diferente.
Devo admitir que considerei tudo muito intrigante. Sempre gostei de histórias sobre fantasmas e fenômenos sobrenaturais, e parte de mim ainda tentava encontrar justificativas para cada acontecimento.
Isso mudou após uma conversa com um morador.
Conversávamos sobre o tempo em que o Sonnenhof ainda era hotel, quando ele comentou sobre festas no sótão. Segundo o que ele ouviu, eram eventos sofisticados e exclusivos, frequentados por hóspedes e convidados ilustres. A música se estendia até a madrugada, a lareira permanecia acesa, e o salão era um dos locais mais animados do hotel.
Entretanto, nem todas aquelas noites terminaram de forma positiva.
Ele compartilhou que algumas pessoas faleceram durante os anos em que as festas foram realizadas. Entre as histórias que chegaram até ele, havia a de uma jovem que teria morrido no próprio sótão durante uma comemoração.
Morador não sabia muitos detalhes do ocorrido e não me revelou quem lhe contou essa história.
Para ele, a atmosfera pesada do lugar poderia estar ligada a tudo o que ocorreu ali ao longo dos anos.
Após essa conversa, nunca mais entrei no sótão sem pensar em quantas pessoas passaram por aquele salão e deixaram alguma marca.
Quantas dançaram diante da lareira?
Quantos admiraram a cidade daquela sacada?
E quantos, de alguma maneira, nunca conseguiram deixar o local?
Foi assim que conheci a história de uma antiga funcionária da limpeza do residencial.
Uma das salas do sótão é usada para armazenar vassouras, baldes e produtos de limpeza. A funcionária precisava subir até lá para pegar alguns materiais durante seu turno.
Era tarefa comum, ela já a havia feito outras vezes.
Naquele dia, subiu sozinha.
O salão estava vazio e silencioso.
Quando entrou no cômodo onde os materiais eram guardados, notou que havia alguém do outro lado da sala.
Um homem.
Parado perto da parede, de costas para ela.
A funcionária supôs que poderia ser um morador ou alguém executando algum serviço no prédio e perguntou se ele precisava de ajuda.
O homem não respondeu.
Permanecia imóvel.
Ela chamou novamente.
Foi então que ele começou a girar a cabeça lentamente, sem mover o restante do corpo.
Naquele momento.
Mas o olhar foi o que mais a apavorou.
Algo nos olhos dele revelou que não deveria estar ali.
O balde escorregou de suas mãos e caiu no chão.
No instante seguinte, o homem desapareceu.
Ele não correu.
Não atravessou nenhuma porta.
Apenas deixou de estar diante dela.
A funcionária saiu apavorada do sótão e desceu as escadas sem levar os produtos que fora buscar.
Após relatar o que viu, afirmou que nunca mais voltaria ao sótão.
Pouco tempo depois, pediu demissão.
Não sei quem era aquele homem.
Não sei se sua aparição está vinculada às festas ou às pessoas que, segundo as histórias, faleceram naquele salão.
Na última vez que subi ao sótão, não vi ninguém.
Não escutei passos.
Nenhuma porta se abriu.
Ainda assim, algo aconteceu.
Poucos minutos após entrar no sótão, comecei a sentir um cansaço profundo.
Não era apenas sono.
Era como se minha energia estivesse se dissipando gradualmente.
Minhas pernas tornaram-se pesadas.
Minha cabeça começou a doer.
Respirar parecia exigir mais esforço do que o normal.
Quanto mais tempo permanecia ali, mais mal me sentia.
Chegou um momento em que percebi que não conseguiria continuar.
Desci até meu apartamento e precisei me deitar. Fiquei imóvel por um tempo, tentando recuperar minhas forças e entender por que me senti tão exausta de repente.
Depois disso, comecei a evitar subir sozinha.
Quando preciso ir até lá, eu entro com cautela. Peço licença em silêncio, não apenas em respeito ao passado daquele local, mas porque, de algum modo, tenho a sensação de que alguém está me ouvindo.
Talvez essa seja apenas uma ilusão causada pelas histórias que ouvi. Mesmo assim, prefiro não entrar como se o sótão fosse um cômodo desocupado. Existe ali uma presença difícil de descrever, algo que parece estar oculto entre as paredes, atento a cada movimento.
O sótão continua sendo um dos espaços mais encantadores do Sonnenhof. A luz penetra pelas antigas janelas de madeira, projetando sombras longas sobre o chão. A lareira permanece preservada, como se ainda retivesse o calor das celebrações de épocas passadas, e a sacada continua a oferecer uma vista do jardim ao longe.
Tudo parece tranquilo.
Mas nunca completamente vazio.
Mesmo quando nenhuma porta se move e nenhum som perturba o silêncio, persiste a sensação de que algo ainda está ali, ocupando o espaço de uma maneira que os olhos não conseguem perceber.
Seus mistérios aumentam sua beleza, tornando o lugar ainda mais intrigante e inquietante. Nunca estive em outro ambiente capaz de despertar em mim uma combinação tão forte de curiosidade, fascínio e temor.
É exatamente isso que faz do sótão um lugar inesquecível.
Ele não é aterrorizante o tempo todo.
Às vezes, ele simplesmente espera pela visita de alguém para ter companhia.