O Fantasma da Recepcionista
Após muitos anos, o antigo Hotel Sonnenhof encerrou suas atividades e foi transformado no residencial que conhecemos hoje.
Foi neste local que Dona Marta deu início à sua carreira como jardineira, cerca de dez anos atrás.
Desde os primeiros dias, percebeu que havia algo peculiar naquele ambiente.
Às vezes, era apenas uma impressão.
Em outras situações, sentia que alguém estava passeando pelos jardins ou a observando em silêncio.
Com o passar do tempo, ela se acostumou com os antigos corredores, as árvores e o sótão. Contudo, havia um local que nunca conseguia ignorar: o antigo balcão da recepção, que foi preservado desde a época em que o edifício ainda funcionava como hotel.
Certa vez, enquanto conversávamos, ela me contou algo que nunca esqueci.
— Tem alguém que nunca saiu desse lugar.
Eu perguntei a quem ela se referia.
Ela olhou lentamente para a antiga recepção antes de responder:
— Joana.
Sempre que menciona esse nome, seu tom de voz se modifica. Fica suave, quase como um sussurro, como se temesse ser ouvida.
— Ela ainda está aqui.
Joana possuía uma conexão intensa com o Sonnenhof quando o prédio ainda funcionava como hotel.
Durante muitos anos, foi recepcionista. Era ela quem entregava as chaves, organizava as reservas, atendia telefonemas e observava, do balcão, o que acontecia no hotel, desde as primeiras horas do dia até o encerramento da recepção.
Ela tinha um lugar que amava acima de tudo.
O jardim.
Ali, ela aproveitava seus momentos de pausa, caminhando entre as flores, ouvindo o vento nas árvores e tentando esquecer, por alguns instantes, a incessante agitação do hotel.
Na recepção, ninguém tinha uma visão tão detalhada quanto Joana.
Ela sabia quem chegava.
Sabia quem saía.
Ela conhecia hóspedes que preferiam ocultar seus verdadeiros nomes.
Percebia visitantes que chegavam discretamente pelos fundos e nunca passavam pela recepção.
Com o passar dos meses, começou a notar conversas que terminavam assim que ela se aproximava, encontros silenciosos durante a madrugada e pessoas influentes que pareciam utilizar o Sonnenhof para muito mais do que simples estadias.
Joana nunca comentava sobre o que via.
Mas começou a registrar tudo em um pequeno caderno que mantinha escondido entre suas coisas.
Dona Marta acredita que esse conhecimento custou a vida de Joana.
Segundo ela, Joana descobriu algo que nunca deveria ter sabido.
Um segredo que envolvia hóspedes importantes, pessoas influentes e eventos que alguém fez questão de apagar da história do Sonnenhof.
Pouco tempo depois, tudo chegou ao fim.
Em uma tarde que parecia comum, durante o intervalo do almoço, Joana foi à pequena copa dos funcionários.
Ela pegou um sanduíche.
Abriu uma garrafa de suco que estava na geladeira.
Sentou-se para comer.
Minutos depois, começou a tossir.
Os colegas acharam que ela havia apenas se engasgado.
Mas a situação se tornou crítica rapidamente.
Joana caiu da cadeira.
Seu corpo começou a se contorcer.
Ela tentava respirar, mas não conseguia.
O pânico dominou a copa.
O socorro foi chamado imediatamente.
Quando a ambulância chegou, já era tarde demais.
O caso foi encerrado como um acidente.
Alguns disseram que foi um engasgamento.
Outros acreditaram que se tratava de uma reação alérgica.
Nenhuma investigação aprofundou o caso.
Com o tempo, o incidente foi esquecido.
Assim como muitos outros eventos daquele antigo hotel, esse também se tornou irrelevante.
Entretanto, Dona Marta sempre teve dúvidas sobre essa versão que lhe contaram.
Para ela, Joana não morreu por acaso.
Ela acredita que alguém envenenou o suco.
E que sua morte foi uma maneira encontrada para evitar que certos segredos se tornassem públicos.
Parecia que a história de Joana havia sido apagada para sempre.
Mas, segundo Dona Marta, algumas verdades se recusam a desaparecer.
Dona Maria revelou que sentiu a presença de Joana pela primeira vez no jardim.
Era uma manhã qualquer.
Ela estava cuidando das roseiras, como fazia rotineiramente, quando teve uma forte impressão de que alguém estava logo atrás dela.
Não eram sons de passos.
Não havia nenhum ruído.
Era uma convicção inexplicável de que não estava sozinha.
Ela continuou seu trabalho por alguns momentos, tentando ignorar a sensação.
Mas a percepção apenas se intensificava.
Era como se alguém a estivesse observando em completo silêncio, tão perto que Dona Maria sentia a respiração acariciar sua nuca.
Ela se virou rapidamente.
Não havia ninguém.
Apenas o jardim.
As árvores balançavam suavemente.
Era um silêncio intrigante, denso, diferente do habitual.
Às vezes, enquanto se inclinava para cuidar das flores, ela tinha a ilusão de ver, pelo canto do olho, uma mulher parada entre as árvores.
Imóvel.
Observando-a.
Quando levantava o olhar para vê-la melhor, a figura sumia.
Como se nunca tivesse estado ali.
Em outras situações, ouvia passos na brita atrás de si.
Passos lentos.
Rítmicos.
Quando se virava...
Nada.
Nem sequer sinais no chão.
O mais curioso era que a presença parecia acompanhar Dona Maria ao longo de toda a jornada.
Ela começou a notar detalhes que não podia ignorar.
As ferramentas mudavam de posição.
Flores recém-podadas apareciam intactas na manhã seguinte.
E, em algumas ocasiões, Dona Maria encontrava uma única rosa branca cuidadosamente colocada sobre o antigo balcão da recepção.
Ninguém nunca admitiu ter deixado aquelas flores ali.
Foi então que os sonhos começaram.
Todas as noites, ela via a mesma mulher.
Ela usava um uniforme antigo de recepcionista.
Os cabelos estavam presos.
O rosto era pálido, mas tinha uma beleza.
Nunca pronunciava uma palavra.
Apenas permanecia parada em frente ao antigo balcão da recepção.
Depois, levantava lentamente a mão e apontava para um copo de vidro sobre o balcão.
Em seguida, colocava a outra mão no pescoço.
Seus olhos se enchiam de lágrimas.
E, antes que Dona Maria pudesse se aproximar, a figura desaparecia.
O sonho se repetiu tantas vezes que Dona Maria decidiu investigar quem era a recepcionista.
Ela passou a procurar fotografias antigas, registros históricos e relatos de pessoas que tivessem qualquer conexão com o local, na esperança de descobrir indícios do passado que elucidassem a enigmática presença que a escolhera.
A cada nova descoberta, Dona Maria sentia uma mistura de surpresa e emoção. A história do Sonnenhof, que até então parecia apenas um cenário comum para seu cotidiano, revelou-se rica em episódios e personagens que pareciam conectar-se de maneira surpreendente com os sonhos e as sensações que ela experimentava. Fotografias antigas mostravam pessoas que vagavam por cantos do jardim que ela tanto amava, enquanto documentos antigos falavam sobre figuras misteriosas associadas ao local, intensificando ainda mais o mistério ao seu redor.
A partir daquele momento, Dona Maria não conseguiu mais trabalhar no jardim da mesma maneira.
Em outras ocasiões, um leve perfume de laranja se espalhava pelo jardim.
Sempre que esse aroma surgia, ela tinha certeza de que não estava sozinha.
Certa vez, enquanto podava uma roseira, ouviu uma voz suave atrás de si.
— Não foi um acidente.
Ela deixou a tesoura cair e se virou rapidamente.
Não havia ninguém ali.
Naquela noite, sonhou novamente com Joana.
Desta vez, ela não estava na recepção.
Estava parada no jardim.
Ela olhava atentamente para Dona Maria.
Depois, levou lentamente a mão ao pescoço.
Em seguida, apontou para um copo de vidro sobre a mesa.
E desapareceu.
Na manhã seguinte, Dona Maria decidiu algo.
Ela nunca mais acreditaria que Joana tinha morrido por engasgo.
Para ela, alguém havia envenenado aquele suco.
Quando perguntei por que Joana a escolheria para essa missão, Dona Marta sorriu, apesar da apreensão evidente em seus olhos.
— Porque eu ouço. — afirmou com firmeza.
Ela ficou em silêncio, refletindo antes de continuar:
— Muitas pessoas relatam ver sombras por aqui. Outras escutam passos em corredores vazios, vozes sussurrantes que parecem vir do passado. Mas eu vejo Joana. Às vezes, ela aparece caminhando pelos jardins, perto daquela entrada que um dia foi a porta do hotel; ou então está em silêncio, observando as janelas da antiga recepção.
Ela nunca faz mal a ninguém. Nunca toca em ninguém. Apenas parece... buscar alguém que acredite em sua história, alguém que deseje ouvir a verdade.
Antes de se afastar, Dona Marta fez uma última advertência enigmática:
— Se algum dia você passar pela antiga recepção e sentir o aroma de pão fresco ou o cheiro de suco de laranja, mesmo que não haja ninguém por perto...
Não duvide.
Continue seu caminho.
Porque Joana ainda espera: espera por alguém que descubra quem realmente envenenou aquele copo.
Desde aquela conversa com Dona Marta, nunca mais consegui passar pela antiga recepção sem lançar um olhar sobre o balcão.
Ele permanece exatamente no mesmo lugar.
A madeira está desgastada pelo tempo.
As gavetas são de épocas passadas.
Um pequeno sino repousa sobre a mesa.
Tudo aparenta estar normal.
Entretanto, de tempos em tempos, quando o corredor está deserto, um leve aroma de laranja flutua no ar.
Não vem da cozinha.
Não provém do jardim.
Ele simplesmente surge.
E desaparece poucos segundos depois.
Nunca vi Joana.
Pelo menos não da maneira como Dona Marta a descreve.
Mas sempre que aquele perfume aparece, uma estranha sensação me invade, como se alguém estivesse aguardando atrás do balcão.
Aguardando.
Como se ainda estivesse em serviço.
Como se estivesse apenas esperando por alguém que deseje descobrir o que realmente aconteceu naquela tarde.