Um Ano e Meio no Residencial Sonnenhof

Há cerca de um ano e meio me mudei para um residencial que, décadas atrás, funcionou como um hotel.

Lembro perfeitamente da primeira vez que entrei aqui.

Foi amor à primeira vista.

Sempre gostei de construções antigas, e aquele lugar parecia ter parado no tempo. Corredores de madeira, escadas antigas, um sótão e objetos que permaneceram ali desde a época em que o prédio recebia hóspedes estrangeiros. Até hoje existem quadros, espelhos e peças de decoração espalhados pelos corredores. Alguns são bonitos. Outros carregam uma atmosfera difícil de explicar.

Com o passar dos meses fui conhecendo os moradores.

E foi então que começaram as histórias.

Um deles contou que, muitos anos atrás, durante a madrugada, um homem apareceu armado com uma faca e golpeou repetidas vezes a porta de um apartamento. Hoje esse apartamento é justamente onde eu moro. As marcas das facadas ainda permanecem na madeira.

Outros moradores falaram sobre vultos vistos pelos corredores, vozes durante a noite, sussurros, histórias de suicídios e de brigas que sempre pareciam acontecer no mesmo apartamento. Também ouvi o relato de um morador que acreditava estar sendo perseguido pelo espírito de uma antiga garota de programa que teria vivido no prédio e morrido ali décadas atrás.

Depois de ouvir tudo isso, comecei a prestar mais atenção ao lugar.

Talvez tenha sido impressão.

Talvez não.

Algumas vezes tive a sensação de não estar completamente sozinha nos corredores. Em outras ocasiões, achei ter visto vultos passando rapidamente pelo canto da visão.

No corredor do térreo também aconteceram duas mortes em um curto espaço de tempo.

O primeiro foi um antigo síndico, que sofreu um infarto ao lado da piscina durante o Natal.

Algum tempo depois, outro morador também sofreu um ataque cardíaco dentro do próprio apartamento. Como vivia sozinho, seu corpo permaneceu ali por quatro dias, até que os vizinhos estranharam seu desaparecimento e decidiram arrombar a porta. Encontraram-no caído no chão.

São acontecimentos reais que acabaram alimentando ainda mais as histórias sobre o prédio.

Quase todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, abro a porta da sacada.

O apartamento fica no térreo, cercado por árvores e jardins.

Não sei explicar por quê, mas às vezes tenho a estranha sensação de que existe alguém parado entre as árvores, me observando em silêncio.

Nunca consegui ver um rosto.

Nunca consegui provar que havia alguém ali.

Mas a sensação permanece.

A experiência que mais me marcou aconteceu durante um dia no final da tarde em que faltou energia.

Acendi uma vela dentro do apartamento e fui até o pátio para verificar um pé de manga que havia plantado.

Quando me virei para voltar, vi algo que jamais consegui esquecer.

Uma figura completamente escura caminhava lentamente em frente à minha sacada.

Como moro no térreo, consegui observá-la com clareza.

Ela passou diante da janela, parou por alguns segundos e pareceu olhar para dentro do apartamento iluminado apenas pela vela.

Depois continuou andando até desaparecer na escuridão.

Nunca descobri quem, ou o que, era.

Desde aquela noite, evito deixar velas acesas dentro do apartamento.

Existe ainda outro episódio que nunca consegui esquecer.

Algum tempo atrás resolvi subir até o sótão para fotografar o lugar. Sempre achei aquele espaço fascinante. O antigo salão de festas, as salas trancadas, a madeira envelhecida e o silêncio pareciam guardar décadas de histórias.

Passei alguns minutos tirando fotografias quando comecei a sentir que havia alguém atrás de mim.

Olhei várias vezes.

Não havia ninguém.

Mesmo assim, a sensação de estar sendo observada só aumentava.

Resolvi descer.

Caminhei rapidamente pelas escadas até o térreo e segui em direção ao meu apartamento.

Foi então que aconteceu.

Pelo canto dos olhos, vi um vulto escuro descer o último lance de escadas logo atrás de mim.

A impressão era de que ele me acompanhava.

Acelerei o passo, entrei no apartamento e fechei a porta imediatamente.

Fiquei alguns minutos em silêncio, tentando entender o que havia acabado de ver.

Talvez tenha sido apenas uma sombra.

Talvez minha imaginação, influenciada por tudo o que já tinha ouvido sobre aquele lugar.

Mas nunca consegui afastar a sensação de que alguma coisa saiu do sótão naquela tarde.

E veio comigo até a porta do meu apartamento.

Talvez exista uma explicação para tudo isso.

Talvez sejam apenas coincidências, impressões ou histórias que acabam ganhando força em um prédio com tantas décadas de existência.

Ou talvez alguns lugares realmente guardem lembranças que se recusam a desaparecer.

Ainda tenho muitas histórias para contar sobre este lugar.

E, de alguma forma, sinto que ele ainda não terminou de contar as dele.

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