O Tabuleiro do Quarto 107

Por um longo período, tentei convencer-me de que tudo o que experimentei era apenas criação da minha imaginação. Uma ilusão gerada pelo efeito do vinho que havíamos ingerido e pelos sons intensos e perturbadores da tempestade que se abatia sobre o local. Esforcei-me para racionalizar cada aspecto, procurando explicações lógicas para o que parecia inexplicável, acreditando que minhas experiências não eram senão fruto da imaginação descontrolada.

Entretanto, algumas lembranças permanecem firmes e vivas em minha mente, tão vívidas e presentes que não se deixam apagar pelo tempo ou pelo esquecimento. Essas memórias continuam a pulsar com a mesma intensidade e clareza do instante em que ocorreram, como se a noite em questão nunca tivesse deixado de existir ou fosse apenas um capítulo aberto na narrativa de nossas vidas.

O que aconteceu no quarto 107 daquele antigo local. Durante o inverno de 2022, eu, Amanda e Júlia optamos por alugar um quarto em um edifício histórico localizado no interior do Rio Grande do Sul. A escolha do local foi motivada pelo desejo de experimentar algo diferente, como uma aventura ou fuga da rotina, mas o que nos esperava era muito mais do que descanso ou diversão.

Ao chegarmos, fomos envolvidas por uma chuva densa e incessante, que caía sem parar sobre o prédio de pedras antigas, criando uma atmosfera pesada e melancólica. Era uma chuva contínua e forte, que parecia envolver todo o edifício em uma espessa cortina cinza, abafando os sons do mundo externo e isolando-nos dos detalhes confortantes da vida cotidiana. O vento também não ficava atrás, soprando com força, fazendo as janelas vibrarem e criando um som lamentoso que se misturava à tempestade.

Um frio rigoroso, daquele tipo que invade profundamente, penetrando até os ossos e tornando o ambiente ao seu redor mais silencioso e vazio. Era um frio que dava ao lugar sensação de abandono, como se o tempo tivesse parado e o espaço fosse esquecido até pelos seus habitantes. O quarto 107 ficava em uma das alas mais antigas. Os corredores que levavam até ele eram longos e sombrios, porém mesmo assim era elegante! A iluminação era baixa, amarelada, lançando sombras inquietantes que dançavam ao longo do final do corredor, imersas em um sentimento crescente de ansiedade.

Ao cruzarmos pela primeira vez a porta daquele quarto, senti uma sensação desconfortável imediata, algo instintivo, um incômodo que me dizia que estávamos invadindo um espaço onde não éramos desejadas. Apesar de Amanda ter se encantado com a decoração antiga do quarto, mencionando que ele tinha uma personalidade própria e parecia repleto de histórias escondidas em suas paredes, era impossível me livrar daquela estranha sensação, um pressentimento que persistia junto com a beleza envelhecida do lugar.

Aquela noite parecia ter todos os ingredientes para ser agradável. Preparamos uma sopa de capeletti quentinha e abrimos uma garrafa de vinho tinto. Rimos e conversamos animadamente. A chuva incessante tornou-se a trilha sonora do nosso jantar. Por algumas horas, o mundo pareceu distante, um refúgio seguro onde podíamos nos entregar à amizade e à calma momentânea.

No entanto, a atmosfera começou a se transformar quando Amanda retirou de sua mochila uma caixa escura contendo um tabuleiro Ouija, instrumento que imediatamente provocou protestos de Júlia e meus. Amanda afirmou que não tinha intenção de causar problemas nem de fazer algo que pudesse trazer complicações.

Menos de uma hora antes da meia-noite, apagamos as luzes da sala, exceto por um antigo abajur sobre a cômoda, que emitia uma luz fraca e tremulante. Sentamo-nos ao redor da pequena mesa perto da janela, ouvindo o som da chuva batendo contra o vidro e o vento assobiando pelas frestas com um tom quase fantasmagórico. Amanda colocou os dedos sobre o indicador do tabuleiro, e nós fizemos o mesmo, com a ansiedade crescendo de modo lento dentro de nós. Os primeiros minutos passaram em silêncio, e a falta de qualquer movimento tornou-se praticamente constrangedora. Para nosso espanto, no entanto, o marcador começou a se mover de modo lento, como se algo invisível o puxasse pelas letras, até finalmente parar na palavra "SIM".

A pressão na barriga aumentou, e nos encaramos, com a sensação de que não estávamos mais sozinhas. Amanda perguntou o nome daquele que supostamente nos respondia, e a peça deslizou com lentidão, soletrando “H”, “E”, “L”, “E”, “N”, “A” — "Helena". Era um nome feminino, um sussurro do passado infiltrado naquela atmosfera densa e enigmática. A temperatura do quarto caiu ainda mais, o ar tornou-se pesado, quase sufocante, como se o próprio ambiente tivesse se transformado ao nosso redor.

Amanda prosseguiu, indagando se Helena estava de fato presente no quarto conosco, e recebeu um claro "SIM". Quando tentou descobrir o que havia acontecido com ela, o marcador começou a se movimentar, mas não conseguiu formar qualquer palavra definível. Foi então que a luz do abajur se apagou abruptamente, e a televisão, que emitira pouco som até então, desligou-se sozinha, mergulhando o quarto na completa escuridão.

O silêncio foi rompido quando a porta bateu de forma violenta, um golpe forte e assustador que ressoou pela noite como um prenúncio sombrio. Gritamos, empurramos uma cadeira contra a porta para conter a figura do lado de fora, e passamos aquela madrugada sentadas na cama, sem coragem para olhar novamente para o corredor. Mas isso não seria o fim daquela experiência perturbadora. Na noite seguinte, pouco antes da meia-noite, ouvimos passos lentos e arrastados do lado de fora da porta. Esses passos pararam e permaneceram ali por quase uma hora. Parecia que uma presença invisível estava esperando, observando e escutando.

Logo depois, a luz do banheiro acendeu sozinha. Amanda foi verificar e encontrou o espelho embaçado de vapor, como se alguém tivesse acabado de sair do banho, e, no centro do vidro, uma palavra estava desenhada com o dedo — "SAIR". Nenhuma de nós ousou tocar naquela superfície após aquela mensagem perturbadora. Foi a última noite que passamos naquele quarto.

Na manhã seguinte, antes mesmo de o sol nascer, partimos às pressas, deixando para trás o antigo residencial e os mistérios que pareciam habitar cada um de seus corredores. Durante o caminho de volta, Amanda jogou o tabuleiro Ouija em uma área de mata, recusando-se a vê-lo novamente ou a permitir que ele interferisse em nossas vidas. Meses depois, minha curiosidade me levou a pesquisar a história do prédio. Durante a pesquisa, descobri uma notícia antiga que relatava que, décadas atrás, uma jovem chamada Helena havia desaparecido misteriosamente durante uma tempestade de inverno. Ela foi vista na mesma ala perto do quarto 107. Seu corpo nunca foi localizado, e a investigação foi arquivada.

Um trecho se destacou especialmente para mim: segundo funcionários que trabalhavam na época, Helena relatava sentir a presença de alguém habitando as paredes do edifício, uma entidade que a observava durante as longas e frias noites. A revelação aumentou o medo, sem confirmação de relação com a silhueta ou os fenômenos.

Até hoje, o que presenciamos naquele corredor continua sendo um enigma. Ainda não sei quem era aquela mulher espectral, mas há algo que nunca consegui esquecer: no instante em que a porta do quarto se abriu pela primeira vez, antes de bater com força, ouvi uma voz baixa, rouca, quase um sussurro, vindo da escuridão do corredor. Ela disse apenas uma palavra: "Finalmente".

Essa voz, som distinto, até hoje não sei se era uma tentativa de acesso, convite para sairmos de lá, ou algo mais profundo e perturbador. O mistério permanece, tão enigmático e imponente quanto o próprio inverno daquele ano em que percebemos que algumas portas deveriam permanecer perpetuamente fechadas, e certos lugares nunca deveriam ser explorados.

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