O Tabuleiro do Quarto 107
Durante muito tempo tentei me convencer de que tudo aquilo foi fruto da imaginação.
Do vinho.
Do frio.
Da tempestade.
Mas existem lembranças que continuam vivas demais para serem esquecidas.
E o que aconteceu no quarto 107 continua exatamente como naquela noite.
Foi no inverno de 2022.
Eu, Amanda e Júlia alugamos um quarto antigo para passar dois dias em um prédio histórico no interior do Rio Grande do Sul.
Chovia desde a nossa chegada.
Uma chuva pesada e constante que parecia envolver o prédio em uma cortina cinzenta.
O vento soprava tão forte que fazia as janelas vibrarem.
Era aquele tipo de frio que se infiltra nos ossos.
O tipo de frio que faz um lugar parecer mais vazio do que realmente está.
O quarto 107 ficava em uma das alas mais antigas do prédio.
Os corredores eram longos.
Silenciosos.
A iluminação amarelada mal alcançava o fim do corredor.
Quando passamos pela porta pela primeira vez, senti uma estranha sensação de desconforto.
Como se estivéssemos entrando em um lugar onde não éramos bem-vindas.
Amanda adorou o quarto.
Disse que ele tinha personalidade.
Disse que parecia carregar histórias.
Naquela noite fizemos sopa de capeletti.
Abrimos uma garrafa de vinho tinto.
Rimos.
Conversamos.
O som da chuva acompanhava tudo como uma trilha sonora constante.
Por algumas horas, o mundo pareceu distante.
Até Amanda abrir a mochila.
De dentro dela tirou uma caixa escura.
Um tabuleiro Ouija.
Eu e Júlia protestamos.
Mas Amanda insistiu.
Disse que seria apenas uma brincadeira.
Nada mais.
Pouco antes da meia-noite, apagamos as luzes.
Apenas um abajur antigo permanecia aceso sobre a cômoda.
Sentamos ao redor da pequena mesa próxima à janela.
A chuva batia contra o vidro.
O vento assobiava nas frestas.
Amanda colocou os dedos sobre o marcador.
Nós fizemos o mesmo.
Durante vários minutos nada aconteceu.
O silêncio começava a ficar constrangedor.
Amanda sorriu.
— Eu sabia.
Então fez uma última pergunta.
— Tem alguém aqui conosco?
O marcador se moveu.
Devagar.
Lentamente.
Como se algo o arrastasse.
Parou sobre a palavra SIM.
Meu estômago gelou.
Ninguém parecia estar empurrando.
Amanda engoliu seco.
— Qual é o seu nome?
A peça voltou a deslizar.
L.
E.
N.
A.
Lena.
O ambiente pareceu mudar naquele instante.
A temperatura caiu.
O ar ficou pesado.
Difícil de respirar.
Amanda continuou.
— Você está neste quarto?
SIM.
— O que aconteceu com você?
O marcador começou a se mover.
Mas não chegou a formar nenhuma palavra.
O abajur apagou.
A televisão desligou.
E o quarto mergulhou na escuridão.
Ao mesmo tempo.
Como se alguém tivesse arrancado a energia do lugar.
Nenhuma de nós falou.
Então ouvimos um som.
Um clique metálico.
A maçaneta da porta.
Ela começou a girar sozinha.
Devagar.
Sem pressa.
Como se uma mão invisível estivesse segurando o metal.
Assistimos aquilo sem conseguir nos mover.
A maçaneta girou completamente.
E a porta começou a se abrir.
Lentamente.
Rangendo.
O corredor apareceu diante de nós.
Escuro.
Vazio.
Mas havia algo errado.
Muito errado.
Porque a escuridão do corredor parecia mais profunda do que deveria.
Como se a luz do quarto se recusasse a alcançá-la.
Então Amanda começou a chorar.
Júlia segurava meu braço com tanta força que suas unhas machucavam minha pele.
Nenhuma de nós conseguia desviar o olhar.
No fim do corredor havia alguém.
Uma silhueta.
Parada.
Imóvel.
Não era possível distinguir um rosto.
Nem roupas.
Apenas a forma de uma mulher observando o quarto.
Observando a nós.
Então a figura deu um passo à frente.
A porta bateu violentamente.
Sozinha.
O estrondo ecoou pelo quarto.
Nós gritamos.
Empurramos uma cadeira contra a entrada.
E passamos o restante da madrugada sentadas na cama, sem coragem sequer de olhar novamente para o corredor.
Mas aquilo não terminou.
Na noite seguinte, pouco antes da meia-noite, ouvimos alguém caminhando do lado de fora.
Passos lentos.
Arrastados.
Os passos pararam diante da porta.
E permaneceram ali.
Por quase uma hora.
Sem se mover.
Sem ir embora.
Como alguém esperando.
Observando.
Escutando.
Pouco depois, a luz do banheiro acendeu sozinha.
Quando Amanda abriu a porta do banheiro para verificar, encontrou o espelho coberto por vapor.
Como se alguém tivesse acabado de tomar banho.
No centro do espelho havia uma única palavra escrita com o dedo.
SAIR.
Nenhuma de nós tocou naquele vidro.
Nenhuma.
Foi a última noite que passamos ali.
Na manhã seguinte fomos embora antes mesmo do amanhecer.
Amanda jogou o tabuleiro em uma área de mata durante a viagem de volta.
Nunca mais quis vê-lo.
Meses depois comecei a pesquisar sobre o prédio.
Foi então que encontrei uma notícia antiga.
Décadas atrás, uma jovem chamada Helena desapareceu durante uma tempestade de inverno.
Foi vista pela última vez naquela ala.
Próxima ao quarto 107.
O corpo jamais foi encontrado.
A investigação acabou arquivada.
Mas uma frase chamou minha atenção.
Segundo funcionários da época, antes de desaparecer, Helena afirmava constantemente que havia alguém morando dentro das paredes do prédio.
Alguém que a observava durante a noite.
Até hoje não sei o que vimos naquele corredor.
Não sei quem era a mulher.
Nem se realmente havia alguma ligação com Helena.
Mas existe uma coisa que jamais consegui esquecer.
Quando a porta se abriu naquela primeira noite, antes de bater violentamente, ouvi algo.
Uma voz.
Baixa.
Rouca.
Quase um sussurro.
Vinda do corredor.
Vinda da escuridão.
Ela disse apenas:
— Finalmente.
E até hoje eu não sei se aquela coisa estava tentando entrar.
Ou se esperava que nós saíssemos.