As Batidas
Moro no Sonnenhof há quase quatro anos, um período que inicialmente parecia ser o início de uma nova fase calma e serena em minha vida.
Ao decidir mudar para este edifício histórico, repleto de história e charme, pensei que finalmente havia encontrado um local tranquilo, um espaço onde poderia relaxar a mente e recarregar as energias após dias cansativos.
O prédio possui realmente uma antiguidade que lhe confere um encanto especial, uma aura nostálgica que remete a épocas passadas. Como se guardassem segredos e memórias de um tempo distante tempo distante. As escadas, sólidas e desgastadas, parecem ter saído de um livro de história, levando-nos a uma época em que os detalhes artesanais faziam parte do cotidiano. As janelas antigas permitem a entrada da luz dourada do final da tarde, filtrando delicadamente os ambientes e criando uma atmosfera acolhedora e reconfortante, que convida à reflexão e ao descanso.
Nos primeiros meses após minha chegada, nada extraordinário chamou minha atenção. A rotina era tranquila, e o silêncio predominava à noite, reforçando a sensação de sossego que eu buscava. Era como se o edifício me tivesse acolhido gentilmente, oferecendo um abraço silencioso e protetor.
Entretanto, essa ausência de ocorrências inexplicáveis pode ter contribuído para a dificuldade em perceber o que viria a seguir. Afinal, quando algo perturbador se manifesta lentamente, sem um sinal de alerta, torna-se mais complicado notar que uma mudança está em andamento, que um lugar que parecia um santuário pode, na verdade, ocultar algo mais.
Recentemente, comecei a notar que a calma que antes valorizava estava sendo rompida por uma série que, embora não comece de forma alarmante, prolifera com uma persistência desconcertante.
O primeiro sinal frequente foi batidas na porta do meu apartamento. Curiosamente, essas batidas ocorrem sempre exatamente às 20 horas e 40 minutos. Exatamente às 20h40, sem um minuto a mais ou a menos, uma precisão que indica intenção deliberada e misteriosa.
São sempre três batidas, lentas e pausadas, um som ritmado que ecoa pelo corredor silencioso.
Toc.
Toc.
Toc.
No início, achei que apenas um vizinho havia se confundido com os apartamentos.
Levantei-me do sofá e fui até a porta. Olhei pelo olho mágico e não vi ninguém; o corredor estava vazio, sem qualquer movimento, nenhuma porta aberta. Somente o silêncio dominava o ambiente.
Nessa noite, tentei me convencer de que tudo não passava de um erro.
Mas os toques voltaram na noite seguinte e na outra também.
Certa noite, esperei pelo horário habitual e permaneci em pé diante da porta.
Assim que os batimentos começaram, olhei rapidamente pelo olho mágico na esperança de ver alguma criança batendo na porta e saindo correndo.
Nada. O corredor estava vazio.
Conforme o tempo passou, a situação se agravou. Objetos que eu sempre deixava em um lugar misteriosamente apareciam em outro. As luzes da casa se acendiam sem razão. Portas que eu achava ter trancado estavam abertas ao retornar ao ambiente. Essas ocorrências aumentaram minha sensação de desconforto, mas nenhuma se comparava ao temor causado pelas batidas na porta, que pareciam se dirigir exclusivamente a mim.
Era como se alguém, ou alguma coisa, tentasse capturar minha atenção, chamando-me para uma interação ainda desconhecida, ou até mesmo aguardasse por uma resposta minha, um gesto de reciprocidade diante da insistência do estranho visitante invisível.
Certa tarde, enquanto organizava a cozinha, acreditei ter ouvido um sussurro suave do meu nome bem atrás de mim. Virei-me rapidamente, mas o apartamento estava vazio, e o silêncio reinava absoluto. A certeza de ter ouvido algo, porém, perturbou-me constantemente.
Naquela mesma noite, as batidas voltaram com a intensidade habitual. Mas, dessa vez, elas soaram mais lentas, mais pesadas, como se o toque na porta estivesse consciente de que eu estava atenta, e quisesse enfatizar sua presença inexplicável de uma forma quase ritualística, quase desafiante.
Impulsionada pela curiosidade e pelo desejo de entender aquele fenômeno, decidi tirar uma foto do corredor às 18h40min do dia seguinte. Ao ampliar a foto no meu celular, algo chamou minha atenção: uma figura humana imóvel encarando diretamente meu apartamento. A imagem era nítida, e a sensação que me invadiu naquele momento foi de puro e incontrolável medo.
Em um impulso imediato, deletei a foto, provavelmente tentando evitar mais evidências daquilo que não queria aceitar como real. Desde então, esse registro perdido tornou-se uma fonte permanente de arrependimento em minha mente; pensei em compartilhá-lo, mostrar para alguém, mas uma mistura de cautela e apreensão me leva a manter o silêncio.
Depois que tirei a foto, as batidas na porta se intensificaram, tornando-se mais frequentes e, às vezes, diárias, criando um ritmo quase ritualístico que domina a atmosfera do meu lar. Elas podem desaparecer por dias ou até semanas, mas nunca deixam de retornar, sempre no horário exato: 20h40, trazendo consigo uma aura inquietante.
Ontem, por exemplo, algo diferente ocorreu. Após as três batidas habituais, uma quarta batida soou, mais forte e mais lenta, demonstrando impaciência, como se o visitante invisível estivesse perdendo a calma diante da minha resistência.
Naquele momento, fiquei paralisada, sem coragem para sequer me aproximar da porta. Então, uma voz baixa, quase um sussurro, penetrou o silêncio do apartamento, clara em sua intenção e compreensão:
“Eu sei que você está aí.”
Meu sangue congelou, e a certeza de que nunca estive sozinha naquele prédio tornou-se inquestionável. Tenho me esforçado para manter a porta fechada; no entanto, a dúvida que me atormenta é: será que isso será suficiente para conter o que insiste em me atormentar?