A Mulher do Airbnb
Quando Elisa decidiu reservar um fim de semana de dois dias no acolhedor e sereno Residencial Sonnenhof, sua principal intenção era encontrar um abrigo de tranquilidade e silêncio. Ela buscava uma pausa bem planejada para se distanciar da agitação da rotina que o trabalho remoto e a cidade exigiam. Aos trinta e quatro anos, Elisa estava envolvida em um projeto importante que precisava ser finalizado rapidamente. Após semanas lidando presencialmente com uma série de reuniões intermináveis, prazos apertados e notificações constantes no computador, ela percebeu que era hora de se afastar do ambiente estressante do dia a dia. Assim, buscou um local onde pudesse recarregar as energias e se concentrar profundamente.
O anúncio do Residencial Sonnenhof parecia ser a escolha ideal, com uma descrição que prometia exatamente o que ela desejava:
"Apartamento aconchegante em um edifício histórico, com vista privilegiada para a colina e um ambiente singularmente tranquilo para quem busca sossego."
No entanto, o anúncio não mencionava os detalhes ocultos que cercavam aquele antigo edifício. Não havia menção às histórias que as paredes daquele prédio guardavam. Nenhuma palavra revelava os mistérios dos antigos moradores que ali viveram e, especialmente, nada indicava o enigmático sótão que pairava silenciosamente acima do apartamento 404, onde Elisa ficaria hospedada.
Elisa chegou ao residencial numa sexta-feira à tarde chuvosa e cinzenta. O clima melancólico combinava com seu anseio por isolamento. A influenciadora digital que gerenciava o Airbnb entregou-lhe as chaves rapidamente, sem muitas explicações, e se despediu, desaparecendo pela porta em poucos minutos. O apartamento era exatamente como nas fotos: bonito e acolhedor. Tinha abundante iluminação natural que entrava por janelas amplas. Essa iluminação oferecia uma vista serena da colina, que era embelezada por altas e majestosas araucárias.
Tudo parecia normal, quase sofisticado demais para o que Elisa estava acostumada. Naquela primeira noite, Elisa mergulhou no trabalho que precisava concluir, permanecendo acordada até tarde, absorvida nas tarefas do projeto. Por volta da meia-noite, exausta, fechou o laptop e decidiu se entregar a um merecido descanso.
Foi nesse instante, no silêncio do apartamento, quando tudo parecia perfeitamente calmo, que Elisa ouviu o primeiro som estranho: passos pesados e lentos, soavam acima de sua cabeça, resmungos abafados que pareciam deslizar de maneira desconcertante pelo andar de cima.
Ela abriu os olhos abruptamente, paralisada pela surpresa e inquietação. Ficou parada, ouvindo os passos continuarem: passos, pausa, passos, pausa, passos. O coração começou a acelerar, mas Elisa tentou se convencer de que não era nada. Olhou o relógio no celular: marcava 00h37. Pensou que algum dos moradores poderia estar apenas fazendo uma caminhada noturna no andar de cima e se acomodou na cama, tentando voltar a dormir.
Na manhã seguinte, comentou sobre os vizinhos barulhentos do andar de cima com uma senhora que regava flores perto da entrada do prédio.
A mulher permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você está hospedada em qual apartamento?
— No 404.
A senhora ergueu os olhos.
Ela respondeu em um tom que cortou o ar: “Acima de você, não há outro apartamento, somente o sótão.”
A revelação gelou o sangue de Elisa. Ela tentou argumentar que alguém deveria ter ido até lá, mas a senhora balançou a cabeça lentamente, com uma voz firme: “Não se sobe. O sótão permanece fechado durante a noite.”
Desconfortável, Elisa queria escapar da conversa, mas aquelas palavras ecoaram em sua mente o dia inteiro. Tentou se distrair: saiu para caminhar, tomou um café reconfortante em uma pequena cafeteria local e se dedicou à leitura de um livro que trouxe para ocupar a mente. No entanto, quando a noite finalmente chegou, a sensação de inquietação que crescera durante o dia voltou com força, tomando conta dela novamente.
Às 00h37, os barulhos do andar de cima voltaram. Elisa sentou-se na cama, com o coração apertado, escutando atentamente por quase dez minutos os sons que pareciam pulsar no teto de seu quarto. Movida pela curiosidade de descobrir a origem dos misteriosos barulhos vindos do sótão, Elisa abriu cuidadosamente a porta de seu apartamento e começou a subir, em silêncio, as escadas que levavam ao último andar, onde ficava o antigo sótão.
O corredor do último andar estava vazio e silencioso. As lâmpadas antigas projetavam uma luz amarelada que conferia ao ambiente uma atmosfera de outro tempo, surpreendentemente diferente do apartamento abaixo. No final do corredor, uma porta estava entreaberta, revelando o acesso ao temido sótão. Um vento frio escapava daquela abertura, envolvendo Elisa em uma sensação gelada e desconfortável. Seu coração acelerou, e ela hesitou. Após reunir coragem, empurrou a porta lentamente para entrar.
O sótão era escuro e silencioso. O ar ali era pesado, preenchendo o ambiente com uma atmosfera densa e estranha. O vasto espaço, que antes servia como salão de festas, estava vazio, exceto por uma única cadeira posicionada no centro, iluminada fracamente pela luz trêmula do celular de Elisa. Os episódios de passos cessaram de forma abrupta, como se algo ou alguém aguardasse sua chegada naquela escuridão.
Quando Elisa direcionou a lanterna em sua mão para a cadeira, algo aterrorizante aconteceu: uma mulher estava sentada ali. Seus cabelos longos e desgrenhados ocultavam parcialmente o rosto, e as mãos estavam imóveis sobre o colo, como se ela estivesse ali há anos, silenciosamente esperando. Elisa paralisou de medo. Mas a mulher com lentidão ergueu a cabeça, com olhos marejados de lágrimas que pareciam contar uma história profunda de dor e melancolia. Com uma voz baixa, quase um sussurro, ela perguntou:
“Você consegue me ver?”
Imobilizada pelo terror, Elisa não conseguiu responder. Seu corpo parecia paralisado por uma força inexplicável. A mulher, então, esboçou um sorriso triste e profundamente melancólico, murmurando:
“Faz tanto tempo...”
Nesse momento, as luzes do sótão começaram a piscar repetidamente — uma vez, duas vezes, três vezes — e então a figura desapareceu no ar, deixando a cadeira vazia e o salão novamente envolto em silêncio absoluto.
Domada pelo pânico, Elisa hesitou por um instante, o coração martelando no peito. Correu pelas escadas sem olhar para trás, trancou a porta do apartamento com mãos trêmulas, apressadamente fez as malas num silêncio preciso e deixou o Residencial Sonnenhof antes mesmo do horário oficial de checkout, sem solicitar qualquer reembolso ou dar explicações.
Ao longo de toda a viagem de retorno para casa, Elisa se esforçou para convencer a si mesma de que nada daquilo realmente acontecera.
Atribuiu tudo ao cansaço acumulado, às semanas de trabalho intenso, à privação de sono e ao estresse que carregava há tanto tempo.
Era mais fácil crer que sua mente fatigada havia transformado um antigo sótão em cenário para uma alucinação do que aceitar a possibilidade de realmente ter encontrado aquela mulher.
Repetiu essa justificativa tantas vezes durante o trajeto que, ao chegar em casa, quase se convenceu dela.