A Mulher do Airbnb
Quando Elisa reservou dois dias no Residencial Sonnenhof, procurava apenas silêncio.
Tinha trinta e quatro anos, trabalhava remotamente e precisava terminar um projeto importante. Depois de semanas lidando com reuniões, prazos e notificações incessantes, decidiu se afastar um pouco da cidade.
O anúncio parecia perfeito.
"Apartamento aconchegante em prédio histórico. Vista para a colina. Ambiente tranquilo."
Nada mencionava as histórias.
Nada mencionava os moradores.
E certamente nada mencionava o sótão.
Elisa chegou em uma tarde chuvosa de sexta-feira.
A influenciadora que administrava o Airbnb entregou as chaves rapidamente e foi embora logo em seguida.
O apartamento era bonito.
Pequeno.
Bem iluminado.
As janelas davam para uma colina coberta por araucárias.
Tudo parecia normal.
Talvez até bonito demais.
Na primeira noite, trabalhou até tarde.
Por volta da meia-noite, fechou o notebook e foi dormir.
Foi então que ouviu o primeiro som.
Passos.
Lentos.
Arrastados.
Acima de sua cabeça.
Elisa abriu os olhos.
Permaneceu imóvel por alguns segundos.
O som continuou.
Passos.
Pausa.
Passos.
Pausa.
Passos.
Olhou para o relógio.
00h37.
Pensou que algum morador estivesse caminhando pelo andar superior.
Virou para o lado e voltou a dormir.
Na noite seguinte, aconteceu novamente.
Dessa vez às 00h37.
Exatamente no mesmo horário.
Os mesmos passos.
O mesmo ritmo.
Lentos.
Arrastados.
Como alguém caminhando sem destino.
Na manhã seguinte, comentou com uma senhora que regava flores perto da entrada do prédio.
A mulher permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você está hospedada em qual apartamento?
— No 404.
A senhora ergueu os olhos.
— Acima de você só existe o sótão.
Elisa sentiu um pequeno arrepio.
— Então alguém deve ter subido lá.
— Não sobe.
— Como assim?
— O sótão permanece fechado durante a noite.
A senhora voltou a regar as flores.
Como se a conversa tivesse terminado.
Naquela tarde, Elisa tentou esquecer o assunto.
Saiu para caminhar.
Tomou café.
Leu um pouco.
Mas, quando a noite chegou, a inquietação voltou.
Às 00h37.
Exatamente.
Os passos retornaram.
Dessa vez mais próximos.
Mais pesados.
Ela sentou na cama.
Escutou por quase dez minutos.
Então tomou uma decisão.
Pegou o celular.
Abriu a porta do apartamento.
E começou a subir as escadas.
O corredor do último andar estava vazio.
As luzes antigas iluminavam tudo com uma tonalidade amarelada.
No fim do corredor havia uma porta.
Acesso ao sótão.
Estava entreaberta.
Elisa parou.
Sentiu o coração acelerar.
Um vento frio escapava pela abertura.
Empurrou a porta.
Devagar.
O sótão surgiu diante dela.
Escuro.
Silencioso.
Vazio.
Ou quase.
No centro do antigo salão de festas havia uma cadeira.
Apenas uma cadeira.
Nada mais.
Os passos haviam parado.
Elisa apontou a lanterna do celular para o ambiente.
Foi quando percebeu algo.
Alguém estava sentado na cadeira.
Uma mulher.
Os cabelos escondiam parcialmente o rosto.
As mãos permaneciam apoiadas sobre o colo.
Imóvel.
Completamente imóvel.
Elisa congelou.
A mulher levantou lentamente a cabeça.
Os olhos pareciam cheios de lágrimas.
Como se estivesse chorando havia muito tempo.
— Você consegue me ver? — perguntou ela.
A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
Elisa não respondeu.
Não conseguiu.
O corpo inteiro parecia incapaz de se mover.
A mulher então sorriu.
Um sorriso triste.
Profundamente triste.
— Faz tanto tempo...
As luzes do sótão piscaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
E a figura desapareceu.
Simplesmente desapareceu.
A cadeira ficou vazia.
O salão voltou ao silêncio.
Elisa correu.
Desceu as escadas sem olhar para trás.
Trancou a porta do apartamento.
Passou o restante da madrugada acordada.
Na manhã seguinte, fez as malas.
Não esperou o horário do checkout.
Não pediu reembolso.
Não fez perguntas.
Apenas foi embora.
Meses depois, já em outra cidade, comentou a história durante um jantar.
Uma amiga riu.
Disse que provavelmente fora um sonho.
Estresse.
Cansaço.
Imaginação.
Elisa concordou.
Era a explicação mais lógica.
Até receber uma mensagem.
A influenciadora que administrava o Airbnb havia publicado uma fotografia antiga do Sonnenhof em suas redes sociais.
Uma imagem tirada décadas antes, quando o prédio ainda era hotel.
Funcionários.
Hóspedes.
Músicos.
Todos reunidos no antigo salão de festas.
Elisa observava a fotografia distraidamente quando sentiu o sangue gelar.
Sentada em uma cadeira ao fundo da imagem estava a mesma mulher.
Os mesmos cabelos.
O mesmo rosto.
O mesmo olhar triste.
A legenda da publicação era curta.
"Funcionária do Hotel Sonnenhof fotografada em 1978. Morreu tragicamente no sótão poucos meses depois."
Elisa fechou a imagem imediatamente.
Nunca respondeu à publicação.
Nunca contou a ninguém o que havia visto naquela noite.
Mas, desde então, evita olhar para relógios durante a madrugada.
Porque algumas vezes, ao acordar sem motivo aparente, encontra um horário familiar iluminando a tela do celular.
00h37.
E por alguns segundos tem a estranha sensação de ouvir passos lentos vindo do andar de cima.