A Sacada 107

Os moradores do Sonnenhof costumavam ignorar certas histórias.

Afinal, todo prédio antigo acumula boatos.

Passos durante a madrugada.

Portas que se abrem sozinhas.

Luzes acesas em apartamentos vazios.

Sombras vistas pelo canto dos olhos.

Mas a história da Sacada 107 era diferente.

Porque existiam registros.

E porque ninguém conseguia explicar por que tantas pessoas, em épocas diferentes, descreviam exatamente a mesma coisa.

Tudo começou a voltar à tona durante uma reforma.

Um pedreiro procurava a origem de uma infiltração em um dos apartamentos quando encontrou uma pequena caixa metálica escondida atrás da parede da sacada.

A caixa estava enferrujada.

Coberta por poeira.

Parecia não ter sido tocada havia décadas.

Dentro dela havia apenas uma fotografia.

Nada mais.

A imagem mostrava um homem parado na sacada.

Alto.

Elegante.

Vestindo um sobretudo escuro.

Ao fundo apareciam as colinas e as luzes da cidade.

No verso da fotografia havia apenas uma frase:

"Se eu desaparecer, não procurem meu corpo."

Nenhuma assinatura.

Nenhuma data.

Nenhuma explicação.

A descoberta rapidamente se espalhou entre os moradores.

E, junto com ela, retornou uma história que muitos acreditavam ter sido esquecida.

Durante anos, diferentes pessoas afirmaram ter visto um homem parado naquela mesma sacada.

Sempre durante a madrugada.

Sempre imóvel.

Sempre observando a cidade.

Nunca olhava para os apartamentos.

Nunca tentava entrar.

Nunca fazia nada.

Apenas permanecia ali.

Como alguém esperando.

A primeira pessoa a relatar aquilo foi um empresário que passou poucos dias no Sonnenhof.

Na época, o prédio ainda recebia hóspedes de diversas regiões do país.

Pouco depois das duas da manhã, ele telefonou para a recepção.

Parecia nervoso.

Disse que havia um homem parado na sacada.

Quando perguntaram se alguém tentava invadir o quarto, respondeu que não.

O homem apenas observava a cidade.

Imóvel.

Como se pertencesse àquele lugar.

Quando um funcionário subiu para verificar, não encontrou ninguém.

Na manhã seguinte, o hóspede pediu outro quarto.

Recusou-se a explicar o motivo.

Meses depois, uma mulher fez exatamente o mesmo relato.

Depois veio um casal.

Depois um músico.

Depois um advogado.

Os anos passaram.

Os relatos continuaram.

Sempre iguais.

Sempre descrevendo o mesmo homem.

Com o tempo, os funcionários passaram a consultar os antigos registros do prédio.

Foi então que encontraram um nome.

Ricardo Voss.

Um homem que permanecera no Sonnenhof por quase dois meses.

Ninguém sabia exatamente o que ele fazia.

Alguns diziam que era empresário.

Outros acreditavam que possuía ligações políticas.

Havia quem jurasse que lidava com pessoas perigosas.

Mas ninguém tinha certeza de nada.

O que todos sabiam era que Ricardo desaparecera.

As roupas continuaram no quarto.

As malas permaneceram no armário.

O carro ficou estacionado por dias.

Mas Ricardo nunca mais foi visto.

A polícia investigou.

Não encontrou qualquer pista.

Nenhum corpo.

Nenhuma testemunha.

Nenhuma explicação.

Com o passar do tempo, o caso foi esquecido.

Mas a figura na sacada permaneceu.

Décadas depois, quando o Sonnenhof se transformou em residencial, os relatos voltaram.

Uma senhora afirmou ter visto um homem observando a cidade durante uma tempestade.

Um estudante disse ter encontrado pegadas molhadas na sacada logo após acordar.

Uma professora jurou ter ouvido a porta da sacada abrir sozinha durante várias madrugadas seguidas.

Todos acabaram se mudando.

Nenhum permaneceu por muito tempo.

Após a descoberta da fotografia, alguns moradores começaram a pesquisar mais sobre Ricardo Voss.

Encontraram quase nada.

Era como se a vida dele tivesse sido apagada.

Poucas fotos.

Poucos documentos.

Poucos registros.

Mas uma informação chamou atenção.

Dias antes de desaparecer, Ricardo havia sido visto discutindo com alguém nos corredores do Sonnenhof.

Ninguém soube identificar a outra pessoa.

O nome jamais apareceu nos registros.

A descrição também desapareceu dos arquivos.

Como se alguém tivesse feito questão de apagar cada detalhe.

Pouco depois, a fotografia encontrada na parede desapareceu.

A caixa continuava lá.

Mas a fotografia havia sumido.

Nenhuma câmera registrou quem a levou.

Nenhum morador admitiu tê-la pegado.

Ela simplesmente desapareceu.

Assim como Ricardo.

Hoje a Sacada 107 continua existindo.

Faz parte de um apartamento comum.

Pessoas entram.

Pessoas saem.

A vida segue normalmente.

Mas em noites de chuva, quando as luzes da cidade brilham através da neblina, alguns moradores ainda evitam olhar para ela.

Porque há quem jure que uma figura permanece parada ali.

Imóvel.

Silenciosa.

Observando o horizonte.

Esperando por algo que nunca chega.

E alguns dizem que, se você olhar por tempo suficiente, terá a estranha sensação de que ela não está observando a cidade.

Está observando você.

Como se estivesse tentando se lembrar de quem é.

Ou de quem a fez desaparecer. 🕯️

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