A voz gravada no celular
Clara conta que tudo começou com as luzes do corredor do segundo andar.
Sempre que passava por ali, as lâmpadas começavam a piscar, acendendo e apagando sem qualquer ordem. No início, acreditou que fosse apenas uma falha na rede elétrica do Residencial Sonnenhof, afinal o prédio tinha sido um hotel durante décadas e ainda preservava boa parte de sua estrutura original.
Com o passar dos dias, porém, Clara percebeu algo estranho: as luzes só piscavam quando ela atravessava o corredor.
Na manhã de sábado, encontrou Otávio, o síndico, próximo à caixa de entregas gerais do condomínio. Como era fim de semana e não estava com pressa, resolveu explicar o que vinha acontecendo.
— Deve ser algum problema na fiação — respondeu Otávio, sem tirar os olhos das correspondências que acabara de buscar. — O prédio é antigo. Essas coisas podem acontecer de vez em quando.
— Mas só acontece quando eu passo pelo corredor. E, pelo que parece, nenhum outro morador relatou algo parecido ao senhor.
Otávio finalmente levantou os olhos.
— Você tem certeza?
— Tenho.
— Vou pedir para um eletricista verificar.
Dois dias depois, o profissional foi ao residencial. Testou os interruptores e os disjuntores, realizou diversas medições e constatou que tudo estava dentro do esperado. Também acionou cada interruptor individualmente. Uma a uma, as lâmpadas acenderam normalmente.
— Não vou ter nem o que cobrar por esta visita — comentou o eletricista com o zelador.
— Certo, muito obrigado — respondeu ele. — Algumas pessoas daqui são exigentes demais. Ficam se apegando a banalidades.
Clara ouviu o comentário enquanto descia as escadas, mas preferiu não responder.
Naquela mesma noite, voltava do mercado carregando várias sacolas quando as luzes começaram a piscar novamente.
A primeira lâmpada apagou assim que ela entrou no corredor.
A segunda piscou quatro vezes.
A terceira permaneceu acesa por alguns segundos antes de se apagar completamente.
Clara largou duas sacolas no chão e pegou o celular.
— São quase dez horas da noite — disse, apontando a câmera para o corredor. — Quero deixar isso registrado porque ninguém está levando a sério o quanto isso é esquisito.
Ela recolheu as compras e avançou com determinação, decidida a provar que não estava imaginando coisas.
Quando se aproximou do apartamento, a quarta lâmpada, instalada exatamente acima de sua porta, explodiu com um estalo seco.
Clara gritou e quase deixou as sacolas caírem.
Depois soltou uma risada nervosa, mais por desespero do que por achar graça. Com as mãos tremendo, demorou a encaixar a chave na fechadura.
Assim que entrou, trancou a porta, guardou as compras e preparou um chá de camomila para tentar se acalmar. Não assistiu à gravação. Apenas deixou o celular carregando sobre a cômoda e foi para a cama.
Quando finalmente adormeceu, teve uma paralisia do sono.
Clara abriu os olhos, mas não conseguiu mover o corpo. Tentou chamar por ajuda, porém nenhum som saiu de sua boca. Duas sombras permaneciam ao redor da cama. Eram altas e estreitas, mais escuras do que o próprio quarto.
Uma delas estava próxima à janela.
A outra se inclinava lentamente sobre Clara.
Ela tentou fechar os olhos, mas não conseguiu. As sombras pareciam observá-la, imóveis, enquanto uma pressão dolorosa se formava sobre seu peito.
A sensação durou tanto tempo que Clara acreditou ter passado a madrugada inteira presa ao colchão.
Despertou de repente com um estouro seco.
A garrafa de refrigerante que havia deixado sobre a escrivaninha estava caída no chão, sem a tampa. Parte do líquido escorria pelo piso.
Ao olhar para o lado da cama, Clara viu uma mulher.
Ela tinha cabelos compridos e escuros, o rosto muito pálido e os olhos avermelhados de tanto chorar. Em uma das mãos, segurava uma seringa.
A mulher não se movia.
Apenas observava Clara.
Clara desmaiou antes de conseguir gritar.
Na manhã seguinte, acordou completamente desorientada. A claridade entrava pelas frestas da cortina, mas o quarto continuava gelado. Não havia ninguém ao lado da cama.
A garrafa permanecia no chão.
Clara foi até a cozinha e preparou um café forte, tentando organizar os pensamentos. Não sabia se a figura fora real, um pesadelo ou uma continuação da paralisia.
Enquanto procurava entender o que havia acontecido, lembrou-se da gravação feita na noite anterior.
Pegou o celular e assistiu ao vídeo.
A imagem mostrava exatamente aquilo de que se lembrava: o corredor vazio, as lâmpadas piscando e sua respiração ficando cada vez mais acelerada.
No entanto, quando Clara se aproximava da porta do apartamento, outra voz podia ser ouvida.
Era baixa, feminina e parecia estar muito próxima do microfone.
— Clara.
Ela interrompeu o vídeo.
Voltou alguns segundos e aumentou o volume.
— Clara.
O celular quase escapou de sua mão.
Naquela tarde, Clara procurou Júlia, a vizinha do apartamento 203.
— Preciso mostrar uma coisa.
Júlia abriu espaço para que ela entrasse.
— Aconteceu alguma coisa?
— Escuta isso.
Clara reproduziu a gravação. Júlia ouviu duas vezes antes de devolver o aparelho.
— Pode ser a sua própria voz — sugeriu.
— Eu não falei meu nome.
— Talvez alguém estivesse no andar de baixo.
— A voz está perto do celular.
— O microfone pode ter distorcido algum barulho.
— Eu ouvi claramente.
Júlia observou Clara por alguns segundos.
— Você estava cansada. Quando estamos assustadas, qualquer ruído pode parecer outra coisa.
Clara não respondeu. Sabia que não era um ruído.
Naquela noite, colocou o celular sobre a mesa e deixou a câmera ligada enquanto preparava o jantar. Queria provar a si mesma que a voz havia sido apenas uma coincidência.
Nada aconteceu.
A gravação mostrava Clara cozinhando, arrumando a mesa e lavando a louça. Nenhuma voz. Nenhuma sombra. Nenhum fenômeno.
Antes de dormir, ela verificou as configurações do aparelho, fechou todos os aplicativos e deixou o celular carregando sobre a cômoda.
Na manhã seguinte, encontrou um novo vídeo.
O arquivo havia sido criado às três horas e dezessete minutos.
Clara se sentou na cama antes de abri-lo.
A câmera mostrava o teto do quarto. Durante quase quatro minutos, havia apenas escuridão e o som de sua respiração enquanto dormia.
Então a mesma voz surgiu:
— Abra a gaveta.
Clara pausou o vídeo.
Esperou alguns segundos e voltou a reproduzi-lo.
— Abra a gaveta.
Ela passou o restante da manhã verificando as configurações do aparelho. Não havia qualquer aplicativo programado para iniciar gravações. O celular estivera bloqueado durante toda a madrugada.
Clara procurou Júlia novamente.
— Tem outro vídeo.
— Outro?
— Foi gravado enquanto eu dormia.
Júlia assistiu ao arquivo sem fazer comentários. Quando ouviu a voz, seu rosto mudou.
— Você pode dormir aqui esta noite — ofereceu. — Só para descansar um pouco.
— Você acredita em mim agora?
Júlia hesitou.
— Eu acredito que você está assustada.
Naquela tarde, Clara abriu todas as gavetas do apartamento.
Revistou roupas, documentos, utensílios e objetos que não utilizava havia meses. Não encontrou nada estranho.
Até chegar à gaveta inferior do antigo armário embutido no corredor.
Ela nunca a utilizava porque a madeira costumava emperrar. Precisou puxá-la com tanta força que a gaveta saiu do trilho e quase caiu sobre seus pés.
Dentro havia apenas poeira.
E uma pequena chave de metal escurecido.
Clara ficou imóvel.
Tinha certeza de que a gaveta estava vazia quando se mudara.
Envolveu a chave em um pano, colocou-a dentro de uma caixa e levou tudo até o apartamento de Júlia.
— Quero que fique com isso.
— O que é?
— Estava na gaveta.
Júlia abriu a caixa e observou a chave.
— Clara, isso pode estar ali desde a época da reforma.
— A voz mandou que eu abrisse a gaveta.
— Você não pode continuar obedecendo a uma gravação.
— Eu não sabia que a chave estava lá.
Júlia fechou a caixa.
— Ela fica comigo. E esta noite você dorme aqui.
Clara concordou.
As duas tentaram conversar sobre assuntos comuns. Pediram comida, assistiram a uma comédia e evitaram falar sobre a chave.
Pouco depois da meia-noite, o celular de Clara acendeu sozinho.
A câmera frontal foi aberta sem que ninguém tocasse na tela.
— Você fez isso? — perguntou Júlia.
— Não.
As duas apareceram sentadas no sofá.
Entre elas, a imagem mostrava uma terceira pessoa.
Era a mesma mulher que Clara vira ao lado de sua cama. Os cabelos compridos e escuros cobriam parte de seu rosto. Ela estava sentada exatamente no pequeno espaço entre Clara e Júlia, embora nenhuma das duas sentisse sua presença.
Clara gritou e deixou o aparelho cair.
Júlia se levantou tão depressa que esbarrou na mesa.
— Você viu?
— Vi.
— Ela estava entre nós.
A tela do celular continuava acesa no chão. A câmera mostrava apenas o teto.
Então a voz saiu pelo alto-falante:
— Devolva a chave.
Júlia correu até a cozinha, pegou a caixa e a lançou para Clara.
— Leva isso embora.
— Você disse que ficaria com ela.
— Eu não quero essa coisa aqui!
— Mas você também viu a mulher.
— Justamente por isso!
Clara recolheu a caixa e voltou para o próprio apartamento. Passou o restante da noite acordada, com todas as luzes acesas. Guardou a chave no fundo de uma tigela com sal, embora não soubesse por que teve aquela ideia.
Às quatro horas da manhã, ouviu água correndo no banheiro.
A torneira da pia estava aberta.
Clara a fechou e ergueu os olhos.
No espelho embaçado, uma palavra havia sido desenhada:
SUBA
Ela recuou.
O sótão ficava acima do quarto andar, no antigo salão de festas do hotel. Os moradores raramente iam até lá. Parte do espaço era utilizada como depósito, mas duas salas permaneciam fechadas. Apenas o síndico e o zelador possuíam as chaves.
Na manhã seguinte, Clara procurou Otávio.
O síndico estava em sua sala, preenchendo alguns documentos, quando ela colocou a caixa sobre a mesa.
— Quero saber se essa chave abre alguma porta do prédio.
Otávio examinou o objeto.
— Onde você conseguiu isso?
— Estava no meu apartamento.
— Não parece pertencer a nenhuma fechadura atual.
— Pode testar?
— Clara, o que está acontecendo?
Ela contou sobre as gravações, a figura no sofá e a mensagem no espelho. Otávio ouviu tudo em silêncio.
— Você deveria passar alguns dias longe daqui — disse ao final.
— Então acredita em mim?
— Eu acredito que você não está bem.
— Júlia viu a mulher.
— Júlia me telefonou de madrugada. Disse que vocês estavam nervosas e que a câmera apresentou algum tipo de falha.
— Ela não disse que era uma falha.
Otávio suspirou.
— Não suba ao sótão sozinha.
— Por quê?
Ele demorou a responder.
— Porque algumas partes do piso estão danificadas.
Clara percebeu imediatamente que aquela não era a verdadeira razão.
Na noite seguinte, o celular enviou sozinho uma mensagem de áudio para o grupo dos moradores.
Durante vinte e três segundos, ouviam-se apenas ruídos abafados. Depois, a voz feminina dizia:
— Ela está fingindo que não me escuta.
As respostas surgiram quase imediatamente.
Júlia: Clara, você está bem?
Henrique, ap. 301: Que áudio é esse?
Dona Marta: Apague isso.
Clara: Eu não enviei nada.
Henrique, que trabalhava com manutenção de computadores, foi até o apartamento de Clara.
— Pode ser algum acesso remoto — explicou, examinando o celular. — Alguém pode ter invadido sua conta.
— E a imagem da mulher?
— Pode ser um filtro, uma sobreposição ou algum arquivo editado.
— Você consegue verificar?
Henrique conectou o aparelho ao notebook e passou quase uma hora analisando os vídeos.
Júlia permaneceu sentada no sofá, observando tudo.
— Isso não faz sentido — murmurou Henrique.
— O quê? — perguntou Clara.
— Os vídeos não foram gravados pela câmera.
— Como assim?
— Eles estão na pasta da câmera, mas não possuem os dados normais de uma gravação. É como se os arquivos simplesmente tivessem aparecido aqui.
Júlia cruzou os braços.
— Eu disse que vi alguém entre nós.
Henrique fechou alguns programas.
— Clara, desligue o celular e retire o cartão.
Ela fez isso diante dos dois.
Henrique guardou o aparelho dentro de uma gaveta.
Poucos segundos depois, uma voz baixa saiu dos alto-falantes do notebook.
— Procure a porta pequena.
Os três ficaram imóveis.
— Vocês ouviram isso? — perguntou Clara.
Henrique verificou rapidamente todos os programas abertos.
— Não há nenhum áudio sendo reproduzido.
Júlia se aproximou do notebook.
— Repete.
O silêncio tomou conta da sala.
Alguns segundos depois, a mesma voz voltou, ainda mais baixa:
— Procure... a porta pequena...
Henrique fechou a tampa do computador.
— Isso não é normal.
Clara olhou para a chave sobre a mesa.
Lembrou-se da palavra escrita no espelho.
SUBA.
— Acho que essa chave abre alguma coisa no sótão.
Júlia balançou a cabeça.
— Você não precisa descobrir o quê.
— Ela quer que eu devolva a chave.
— E você realmente acha que entregar essa chave vai fazer tudo parar?
Clara não respondeu.
Na manhã seguinte, os três subiram até o sótão.
Otávio os encontrou no último lance da escadaria e tentou impedi-los.
— Eu falei para não subirem.
— Então venha conosco — respondeu Clara. — Assim ninguém entra onde não deve.
— Isso não é uma brincadeira.
— Também não é uma brincadeira acordar com vídeos gravados enquanto eu durmo.
Otávio olhou para Henrique e Júlia, esperando que algum dos dois tentasse convencer Clara a desistir.
Nenhum deles disse nada.
O síndico hesitou, mas acabou acompanhando o grupo.
O antigo salão estava frio e cheirava a madeira úmida. Havia móveis cobertos por lençóis, caixas empilhadas e cadeiras abandonadas próximas às janelas. A luz da manhã atravessava os vidros embaçados, mas não parecia aquecer o ambiente.
— Que porta pequena? — perguntou Henrique.
— Eu não sei — respondeu Clara. — Foi apenas isso que a voz disse.
Os quatro começaram a procurar.
Henrique afastou algumas caixas. Júlia examinou a parte inferior dos armários. Otávio verificou as duas salas fechadas, mas nenhuma das chaves que carregava se parecia com a encontrada por Clara.
Depois de alguns minutos, Clara percebeu uma cortina desbotada cobrindo parte de uma parede.
— Sempre teve uma cortina aqui? — perguntou.
Otávio olhou na direção indicada.
— Provavelmente. Há muitas coisas antigas neste salão.
Clara afastou o tecido.
Atrás dele havia uma parede revestida por madeira. À primeira vista, parecia igual ao restante do salão. Entretanto, próximo ao chão, quase escondida entre dois painéis, havia uma pequena fechadura.
— Eu nunca reparei nisso — disse Otávio.
Clara retirou a chave do bolso.
— Não faça isso — pediu Júlia.
A chave encaixou perfeitamente.
Quando Clara a girou, uma porta estreita se abriu para dentro da parede.
Do outro lado havia um corredor tão apertado que apenas uma pessoa conseguiria passar por vez. Não existiam janelas nem lâmpadas. O ar que saía dali era gelado e tinha um cheiro forte de poeira e madeira apodrecida.
— Isso não aparece na planta do prédio — murmurou Otávio.
Henrique acendeu a lanterna do celular.
— Pode ser uma antiga passagem de serviço.
— Então por que está escondida? — perguntou Júlia.
Ninguém respondeu.
Clara entrou primeiro.
As paredes estavam riscadas. Não eram palavras, apenas linhas profundas feitas repetidamente no mesmo lugar, como se alguém tivesse usado as unhas para marcar a madeira.
O corredor terminava em um pequeno cômodo vazio.
No centro havia uma cadeira voltada para a parede.
Sobre o assento estava o celular de Clara.
O mesmo aparelho que Henrique havia desligado, retirado o cartão e guardado dentro da gaveta do apartamento.
— Não pode ser — sussurrou Henrique.
Clara não conseguiu se aproximar.
— Você colocou isso aqui?
— Eu estava com vocês o tempo todo.
A tela do aparelho acendeu.
Uma nova gravação começou a ser reproduzida.
Clara viu a si mesma entrando no cômodo, seguida por Júlia, Henrique e Otávio. A imagem parecia ter sido filmada de cima, embora não houvesse câmera alguma no teto.
Na gravação, os quatro permaneciam parados diante da cadeira.
Mas a mulher de cabelos escuros estava atrás deles.
Muito próxima.
Clara virou-se.
Não havia ninguém.
Na tela, porém, a figura se aproximou ainda mais. Inclinou o rosto sobre o ombro de Clara e sussurrou:
— Agora você sabe onde eu estava.
A porta do corredor se fechou.
Júlia gritou.
Henrique correu até a saída e tentou puxar a porta, mas ela não se moveu.
— Está trancada!
— A chave! — gritou Otávio. — Onde está a chave?
Clara ainda a segurava. Tentou encaixá-la na fechadura pelo lado de dentro, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguia.
Henrique segurou a maçaneta e puxou com toda a força.
— Tem alguma coisa do outro lado!
— Não tem ninguém lá fora! — respondeu Otávio.
— Tem alguma coisa segurando a porta!
A voz feminina voltou a sair do celular:
— Devolva.
Clara olhou para a cadeira.
Havia um pequeno buraco na parede diante dela. Tinha o tamanho exato da chave.
— Clara, não! — gritou Júlia.
Sem saber o que mais fazer, Clara se aproximou e colocou a chave dentro da abertura.
No mesmo instante, a tela do celular se apagou.
A porta se abriu.
Os quatro atravessaram o corredor às pressas e deixaram o sótão sem olhar para trás.
Otávio trancou a entrada do salão e guardou as chaves no bolso.
— Ninguém vai voltar lá — declarou.
— E a passagem? — perguntou Henrique.
— Vou mandar fechar aquela parede.
Clara olhou para ele.
— Isso não vai impedir o que quer que esteja lá dentro.
Otávio não respondeu.
Naquela tarde, Clara começou a fazer as malas.
Júlia permaneceu no apartamento enquanto ela guardava roupas e documentos.
— Você pode ficar comigo até encontrar outro lugar — ofereceu a vizinha.
— Não quero levar isso para o seu apartamento.
— Você acha que ela vai seguir você?
Clara olhou para o celular desligado sobre a mesa. Depois pensou na chave, que agora permanecia escondida dentro da parede do sótão.
— Não — respondeu. — Acho que ela está presa ao prédio por alguma razão que eu não quero descobrir.
Antes de sair, Clara apagou todos os vídeos e deixou o aparelho dentro de uma das gavetas do apartamento.
Na manhã seguinte, Júlia entrou no local para verificar se a amiga havia esquecido alguma coisa.
O apartamento estava vazio.
O celular permanecia na gaveta, desligado e sem bateria.
Ainda assim, um novo áudio havia sido enviado para o grupo dos moradores durante a madrugada.
Dessa vez, a voz não chamava por Clara.
Ela dizia apenas:
— A chave não era dela.