O Espelho do Antigo Sótão
A reforma do sótão começou numa segunda-feira, logo após as sete da manhã.
Uma parte do assoalho foi trocada, e uma divisória teve que ser derrubada.
Entre elas, havia um espelho.
Ele era quase do tamanho suficiente para alcançar o teto de um apartamento padrão e tão largo que quatro homens precisaram transportá-lo de lado. Sua moldura de madeira escura exibia pequenas flores entalhadas entre contornos sinuosos. O vidro estava manchado nas bordas, como se uma fumaça antiga tivesse penetrado sob a superfície.
Sem saber o que fazer, trabalhadores deixaram temporariamente no corredor do terceiro andar, perto do apartamento 300.
— Apenas até decidirem para onde isso vai — comentou um deles.
O espelho ocupava quase todo o espaço entre duas portas. Os moradores precisavam diminuir o passo ao passar, desviando das ferramentas e das latas de tinta deixadas durante a reforma.
Helena foi a primeira a notar que havia algo incomum.
Vivia no apartamento 300 há pouco mais de dois anos. Trabalhando em casa, revisava contratos para uma companhia de seguros, e raramente se envolvia nas conversas do condomínio. Conhecia os vizinhos mais pelo som dos passos, pelos horários em que fechavam as portas e pelos aromas das refeições que se espalhavam pelo corredor.
Naquela tarde, saiu para buscar uma encomenda na portaria.
Quando passou pelo espelho, lançou um olhar distraído para sua própria imagem.
Um arrepio percorreu sua espinha.
O vidro não refletia o corredor.
No lugar disso, havia um salão luxuoso, iluminado por grandes lustres. Homens em paletó escuro caminhavam entre mesas cobertas com toalhas brancas. Garçons carregavam bandejas de prata, enquanto casais dançavam lentamente ao fundo.
Helena parou.
Desviou o olhar para o corredor real.
Havia apenas latas de tinta, uma escada de madeira e a poeira deixada pelos trabalhadores.
Voltou a encarar o espelho.
O salão continuava ali.
Uma mulher de vestido vermelho atravessou o reflexo segurando uma taça. Um garçom inclinou-se diante de um casal. Os convidados conversavam, mas nenhum som atravessava o vidro.
Tudo ocorria em completo silêncio.
Então, uma porta se abriu no fundo do corredor.
Dona Gertrudes apareceu carregando um saco de lixo.
— A senhora está vendo isso? — perguntou Helena.
A idosa lançou um olhar rápido para o espelho.
— Vendo o quê?
Helena voltou-se para a superfície.
O reflexo havia voltado ao normal.
Agora mostrava o corredor, a escada, as latas e as duas mulheres paradas diante do vidro.
— Nada — respondeu Helena, reprimindo a inquietação.
Dona Gertrudes prosseguiu até as escadas. Antes de desaparecer no andar inferior, porém, olhou novamente para o espelho. Por um instante, sua expressão pareceu menos confusa e mais inquieta.
Naquela noite, Helena tentou encontrar uma explicação lógica: cansaço, excesso de trabalho, alguma alteração na luz ou um episódio de tontura.
Repetiu essas opções até que parecessem aceitáveis.
Na manhã seguinte, o salão estava ali novamente.
Desta vez, músicos se posicionavam próximos às janelas. Um homem tocava violino, enquanto outro se sentava diante de um pequeno piano. Helena reconheceu o teto triangular e as vigas de madeira grossa.
Era o salão do sótão.
Entretanto, parecia maior, mais elegante e banhado por uma luz dourada.
As pessoas dançavam sobre o piso encerado.
No centro do reflexo, Helena viu a si mesma.
Vestia as mesmas roupas e segurava a mesma caneca de café. Sua imagem, no entanto, permanecia imóvel entre os casais, como se tivesse sido colocada naquele cenário por engano.
Helena levantou a mão direita.
O reflexo não se moveu.
Abaixou a mão.
A imagem permaneceu parada.
Além disso, não a olhava.
Estava olhando para algo atrás dela.
Helena virou lentamente a cabeça.
O corredor estava vazio.
Quando voltou a encarar o espelho, seu reflexo havia desaparecido.
Restavam apenas os hóspedes, os garçons e os casais, que continuavam a dançar em silêncio.
Helena entrou no apartamento e trancou a porta.
Naquela tarde, não conseguiu trabalhar. Releu as mesmas linhas repetidamente, sem conseguir compreender o conteúdo. Sentia um cansaço profundo, como se não tivesse dormido há vários dias.
Foi para a cama antes das nove.
Na manhã seguinte, despertou ainda mais exausta.
Ao escovar os dentes, percebeu que o rosto estava pálido. Sombras escuras apareciam sob os olhos, e as mãos apresentavam um leve tremor. Mediu a temperatura, bebeu água e decidiu ficar em casa.
Por volta do meio-dia, ouvi passos no corredor.
Depois, música.
As notas de um violino surgiam entre os ruídos da reforma. Eram distantes e quase inaudíveis, desaparecendo sempre que Helena prendia a respiração para ouvir melhor.
Ela abriu a porta.
O corredor estava vazio.
O espelho ainda estava encostado na parede.
Helena tentou ignorá-lo, mas a superfície escura parecia absorver a luz ao redor. Bastou um breve olhar para que o antigo salão reaparecesse.
Desta vez, os convidados estavam encostados às paredes.
Ninguém estava dançando.
Todos olhavam na mesma direção.
Para ela.
No centro do reflexo, havia uma mulher com o rosto de Helena.
Parecia ter pelo menos quinze anos a mais. Pequenas rugas rodeavam seus olhos, e alguns fios brancos surgiam em seus cabelos. Estava vestida com as mesmas roupas que Helena usava naquele instante.
Helena tocou o próprio rosto.
A imagem não repetiu o gesto.
Continuava olhando para trás dela.
Então, o reflexo levantou lentamente uma das mãos e apontou para algo fora do alcance do espelho.
Helena não se virou.
Recuou até alcançar a porta do apartamento.
A música parou.
Naquela noite, cobriu o espelho com um lençol. Prendeu o tecido na moldura usando fita adesiva e apoiou duas latas de tinta contra sua base.
Depois, entrou no apartamento, trancou a porta e colocou uma cadeira sob a maçaneta.
Pouco antes das três da madrugada, despertou ao som de passos.
Eles não vinham pelo corredor.
Pareciam estar dentro do apartamento.
Helena ficou imóvel na cama, escutando.
Um passo.
Depois, outro.
Lentos e arrastados, como se alguém explorasse um local desconhecido.
O som atravessou a sala e parou diante do quarto.
Helena acendeu o abajur.
Não havia ninguém.
Na manhã seguinte, encontrou a porta do apartamento entreaberta.
A cadeira estava tombada a alguns metros dali.
No corredor, o lençol havia sido cuidadosamente dobrado e colocado diante do espelho. As fitas adesivas permaneciam fixas à moldura, sem qualquer sinal de terem sido removidas.
Helena procurou o síndico.
Otávio estava no térreo, conversando com Sérgio, o responsável pela reforma.
— Aquele espelho precisa ser removido do corredor — declarou Helena.
— O espelho encontrado no sótão? — indagou Otávio.
— Ele não pode continuar em frente ao meu apartamento.
Otávio passou a mão pelo rosto.
— Já pedi que o levem ao depósito.
Sérgio interrompeu a conversa:
— Não vai caber. A porta do depósito é estreita demais.
— Então, deixem o espelho no salão até encontrarmos outro lugar — replicou Otávio.
Sérgio hesitou.
— Acho que o senhor não compreendeu. Nós não o retiramos de dentro do salão.
Otávio franziu a testa.
— Como assim?
— Encontramos o espelho atrás de uma parede falsa. Estava coberto por duas camadas de tecido, com o vidro voltado para o reboco da parede original.
Helena sentiu um arrepio percorrer seus braços.
— Alguém construiu a divisória para escondê-lo?
Sérgio assentiu lentamente.
— Foi o que pareceu.
O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão.
— Tire-o do corredor ainda hoje — ordenou Otávio.
Naquela tarde, dois operários tentaram levar o espelho do terceiro andar ao térreo.
A escada entre o sótão e o terceiro andar era larga, mas o lance seguinte se estreitava diante de uma curva apertada. A moldura passou pelo primeiro trecho, mas ficou presa antes de atingir o segundo andar.
Os homens mediram o espaço, alteraram a posição e tentaram novamente.
Não obtiveram sucesso.
O espelho foi devolvido ao corredor.
Helena observou tudo da porta de seu apartamento.
No reflexo, o salão estava vazio.
As mesas tinham desaparecido. Os instrumentos estavam abandonados perto das janelas, e os lustres balançavam levemente, embora não houvesse vento.
Apenas uma pessoa permanecia ali.
A mulher com o rosto de Helena.
Agora, parecia muito mais velha.
Tinha os cabelos completamente brancos, a postura encurvada e a pele fina, quase translúcida. Permanecia imóvel no centro do salão, olhando para trás.
Helena sentiu uma pressão no peito.
Sua visão escureceu, e ela precisou apoiar-se na parede.
Dentro do espelho, a velha sorriu.
Não foi um sorriso largo. A pessoa apresentou um leve movimento nos cantos da boca de forma discreta e satisfeita.
Helena desmaiou.
Otávio a encontrou caída no corredor e chamou uma ambulância. Os exames realizados no hospital não mostraram infecção, anemia ou qualquer alteração que pudesse explicar o cansaço. Sua pressão estava baixa, e o médico recomendou repouso e acompanhamento caso os sintomas piorassem.
Ela retornou ao Sonnenhof no mesmo dia.
Nos dias seguintes, seu estado piorou.
Helena dormia longas horas e despertava como se não tivesse descansado. Seus cabelos começaram a cair sobre o travesseiro. O rosto perdeu a vivacidade, e as roupas tornaram-se folgadas.
Ao mesmo tempo, o antigo salão parecia ganhar vida própria.
A música podia ser ouvida de dentro do apartamento: primeiro o violino, depois o piano e, por fim, conversas e risadas abafadas, como se uma festa acontecesse do outro lado da parede.
Na sexta-feira à noite, a energia do terceiro andar foi cortada.
Helena estava sentada no sofá quando as luzes se apagaram. O computador desligou, e o apartamento mergulhou na escuridão.
No corredor, entretanto, uma luz dourada atravessava a fresta sob a porta.
A música começou.
Desta vez, não parecia distante.
O violino tocava do lado de fora.
Helena levantou-se com dificuldade. Suas pernas mal conseguiam sustentar o peso do corpo, mas ela atravessou a sala e abriu a porta.
Do outro lado, não havia corredor.
O antigo salão estendia-se à sua frente.
Os lustres iluminavam as paredes. Garçons circulavam entre mesas ocupadas, enquanto casais dançavam ao som da música. O ar estava impregnado com o cheiro de cera, perfumes e madeira polida.
A moldura do espelho continuava junto à parede.
O vidro, contudo, havia sumido.
Em seu lugar, havia uma abertura escura.
Uma passagem.
No centro do salão, a velha aguardava.
Helena reconheceu seus olhos naquele rosto envelhecido.
A mulher estendeu a mão.
Atrás dela, os convidados interromperam a dança.
Ninguém fez uma única declaração.
Helena sentiu uma intensa vontade de avançar. Não era curiosidade nem medo, mas uma espécie de alívio, como se passar por aquele portal fosse mais simples do que voltar ao apartamento e continuar a acordar cada dia mais fraca.
Deu um passo.
A velha sorriu outra vez.
Então, Helena entendeu o que seu reflexo observava desde o princípio.
Havia alguém atrás dela.
Dentro do apartamento, uma jovem mulher estava junto à porta. Tinha os cabelos, as roupas e o rosto de Helena, suas roupas e seu rosto. Parecia saudável, corada e alerta.
Era como se carregasse toda a vitalidade que Helena havia perdido.
A jovem sustentou o olhar por alguns segundos.
Então, fechou a porta.
A luz dourada se apagou.
Helena desabou antes de alcançar a passagem.
Na manhã seguinte, dois trabalhadores a encontraram desmaiada diante do espelho. Estava muito pálida, mas respirava.
Foi levada ao hospital, onde permaneceu internada por três dias.
Quando retornou ao Sonnenhof, o espelho havia desaparecido.
Otávio disse que o objeto havia sido levado para um depósito fora da cidade. No entanto, não encontrou a nota do serviço, o nome da empresa responsável, nem qualquer morador que tivesse testemunhado sua retirada.
Helena mudou-se no final daquele mês.
Com o tempo, recuperou parte de suas forças. Seus cabelos pararam de cair, e a cor voltou lentamente ao seu rosto. Contudo, aqueles que a conheciam diziam que ela parecia diferente.
Mais velha, talvez.
Ou simplesmente mais distante.
Meses depois, durante a finalização da reforma, um trabalhador encontrou uma fotografia entre as tábuas retiradas do antigo salão.
A imagem mostrava uma festa realizada no hotel em 1954. Havia lustres acesos, garçons circulando e dezenas de hóspedes dançando em frente a um espelho de moldura escura e de grande dimensão.
No centro da fotografia, uma jovem permanecia imóvel entre os casais.
Ela tinha o rosto de Helena.
Não olhava para a câmera.
Olhava para algo que estava atrás dela.
No verso da fotografia, alguém havia escrito uma única frase:
O salão precisa de alguém que continue observando.