A Recepção do Sonnenhof
Anos depois de o antigo hotel ter sido transformado em residencial, a administração decidiu reativar a recepção e contratar funcionários para ocupar novamente o velho balcão.
A proposta parecia simples: manter a recepção funcionando vinte e quatro horas por dia. O objetivo era receber encomendas, auxiliar os moradores em questões cotidianas e orientar os hóspedes de Airbnb. Frequentemente, esses hóspedes se confundiam entre os corredores, escadas e os diferentes acessos do residencial.
As entrevistas foram conduzidas por uma funcionária da administradora do condomínio e pelo próprio síndico. Apegado ao Sonnenhof e conhecedor de boa parte de sua história, ele fez questão de participar pessoalmente da seleção.
Durante uma das entrevistas, enquanto analisava os currículos, ele comentou com a representante da administradora, deixando escapar um sorriso debochado:
— Quero ver se encontramos alguém que consiga ficar aqui por, pelo menos, um mês.
Ela riu, acreditando ser apenas uma brincadeira.
Não era.
A recepção funcionaria em sistema de revezamento, sempre com dois funcionários por plantão. As equipes se alternariam entre os períodos diurno e noturno, garantindo que ninguém permanecesse sozinho atrás do balcão.
Para os moradores, aquilo representava uma melhoria considerável. A presença constante de funcionários transmitia uma sensação maior de organização e segurança. Se algum hóspede chegasse às onze da noite sem encontrar o apartamento, se um entregador aparecesse durante a madrugada ou se qualquer situação fora do habitual ocorresse, haveria sempre alguém disponível para ajudar.
Inicialmente, trabalhar em dupla também pareceu uma vantagem para os próprios funcionários.
Não demorou muito, porém, para perceberem que ter companhia não tornava o Sonnenhof menos estranho.
Durante as entrevistas, haviam sido informados apenas de que o edifício era antigo e de que, por ter funcionado como hotel durante décadas, ainda conservava algumas características da construção original. Ninguém mencionara histórias sobre aparições ou portas que se fechavam sem motivo. Também não se falava do inexplicável aroma de laranja que, de tempos em tempos, surgia no saguão. Não havia fruta, produto de limpeza ou perfume que justificasse sua presença.
Talvez fosse melhor assim.
O sobrenatural não tardou a se manifestar por conta própria.
Às vezes, tenho a impressão de que os espíritos do Sonnenhof não fazem questão de permanecer escondidos.
Lucas e José. Período diurno.
Foi em uma terça-feira à tarde que Lucas teve sua primeira experiência.
O movimento estava tranquilo. Sentado atrás do balcão, ele tomava café enquanto ouvia o rádio. José, seu companheiro de turno, havia saído por alguns minutos para receber um entregador que estava no portão de entrada do residencial.
Foi então que Lucas sentiu um forte aroma de laranja.
Não era exatamente o aroma de uma fruta recém-descascada. Parecia um perfume antigo, cítrico e adocicado, que surgiu de repente e tomou conta da recepção.
Lucas ergueu os olhos da caneca.
Olhou em direção às escadas, depois para corredor e, por fim, para entrada do residencial.
Não havia ninguém.
O cheiro tornou-se mais intenso.
Foi quando seus olhos encontraram o antigo espelho instalado em uma das paredes do saguão, a poucos metros do balcão.
No reflexo, havia uma jovem aparecia atrás dele.
Lucas permaneceu imóvel.
Ela era bonita, tinha os cabelos compridos e vestia um uniforme que ele nunca vira entre os funcionários atuais: saia escura, camisa clara e um pequeno casaco ajustado ao corpo. Pela aparência, lembrava os antigos uniformes que as recepcionistas do hotel usavam.
Lucas virou-se rapidamente.
Não havia ninguém atrás do balcão.
Ao olhar novamente para o espelho, a jovem continuava lá.
Desta vez, mais próxima.
Lucas sentiu o corpo inteiro enrijecer.
A mulher ergueu o rosto lentamente até que seus olhos encontrassem os dele no reflexo.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Então, ela abriu a boca e soltou um grito.
O som atravessou a recepção de maneira tão abrupta que Lucas deixou a caneca cair sobre o balcão. O café espalhou-se pelos papéis, mas ele sequer percebeu.
Saiu do saguão quase correndo e atravessou a porta em direção ao pátio.
José estava do lado de fora quando o viu aparecer.
— O que aconteceu com você?
Lucas parou diante dele, pálido, tentando recuperar o fôlego.
— Há uma mulher lá dentro.
José olhou imediatamente para a porta da recepção.
— Uma moradora?
Lucas balançou a cabeça.
Suas mãos tremiam.
— Não.
Engoliu em seco antes de completar:
— Eu só conseguia vê-la pelo espelho.
Lucas e José foram juntos procurar o síndico. Precisavam de alguma explicação, qualquer coisa que tornasse o que havia acabado de acontecer um pouco menos absurdo.
Quando os dois relataram a aparição, o senhor Antônio ouviu-os em silêncio.
Por dentro, pensou que, daquela vez, os espíritos haviam resolvido se apresentar mais cedo do que o esperado.
Contudo, não demonstrou surpresa.
Em vez disso, franziu a testa e adotou um tom quase divertido.
— Uma mulher apareceu no espelho e gritou com você?
Lucas assentiu, ainda visivelmente abalado.
Antônio soltou um breve suspiro.
— Deve ter sido sua imaginação.
José olhou, desconfiado, para Lucas e, depois, para o síndico, desconfiado.
Antônio acrescentou, então, tentando transformar o assunto em brincadeira:
— Talvez seja melhor começar a tratar as mulheres com mais carinho. Vai que elas param de aparecer nos espelhos para te assustar.
José soltou uma risada curta, mas Lucas não achou graça.
A resposta do síndico pareceu estranha demais. Não por tratar o episódio com uma naturalidade desconcertante, mas por não demonstrar, em momento algum, qualquer surpresa.
Lucas ainda tentou insistir, explicando novamente o cheiro de laranja, o reflexo e o grito. Antônio, porém, desconversou e disse que, provavelmente, o cansaço fizera sua mente pregar-lhe uma peça.
Naquele dia, Lucas não conseguiu permanecer na recepção.
Ainda confuso e com a sensação desagradável de que o síndico sabia mais do que estava disposto a admitir, ele pediu para encerrar o expediente mais cedo.
Ele foi direto para casa.
Marcos e Gustavo. Período: madrugada.
Alguns apartamentos eram alugados por períodos curtos para pessoas misteriosas e afortunadas.
Entre esses hóspedes, havia homens que chegavam durante a madrugada sempre muito bem-vestidos, quase sempre de terno. Evitavam conversas, respondiam apenas o necessário e faziam questão de manter distância dos funcionários da recepção.
Chamavam a atenção também pelas malas que carregavam: grandes, rígidas, de material resistente e aparentemente caro.
Gustavo, habituado a assistir a documentários e ouvir podcasts sobre crimes reais, não conseguia olhar para aquelas malas sem imaginar possibilidades absurdas.
Certa madrugada, enquanto observava três daqueles homens atravessarem o saguão, inclinou-se discretamente na direção de Marcos.
— Olha o tamanho dessas malas. Aposto que cabe até um corpo aí dentro.
Marcos arregalou os olhos.
— Pare de dizer essas coisas.
— Estou falando sério.
— Justamente por isso. Pare.
Gustavo conteve uma risada, mas Marcos continuou a acompanhar os homens com o olhar até que desaparecessem pelas escadas.
—Esses caras não têm cara de gente com quem devamos brincar — murmurou. Parecem ter dinheiro, influência... sei lá. É melhor não nos metermos.
Gustavo não respondeu.
Naquele momento, a suspeita parecia mais uma consequência de sua obsessão por histórias de crimes.
Mais tarde, porém, ele começaria a se perguntar se Marcos não teria percebido o perigo antes dele.
De vez em quando, os hóspedes excêntricos apareciam acompanhados de mulheres muito jovens e belas.
Marcos e Gustavo entenderam rapidamente que o melhor a fazer era não fazer perguntas. Naquele ambiente, ser discreto, observar mais do que falar e fingir não perceber certas coisas parecia a postura mais inteligente e talvez a mais segura.
Ainda assim, Marcos não conseguiu ignorar completamente o que via.
Sem comentar com ninguém, começou a anotar algumas movimentações estranhas: horários de chegada, apartamentos ocupados por poucos dias, hóspedes que evitavam a recepção e visitas que ocorriam sempre tarde da noite.
Foi durante uma dessas madrugadas que Marcos, tomado pelo tédio e por uma inquietação difícil de explicar, começou a mexer no antigo balcão da recepção.
No início, abriu apenas algumas gavetas ao acaso. Depois, passou a examinar cada canto com mais atenção, como se algo ou alguém o induzisse a procurar o que ele próprio desconhecia.
Foi assim, quase sem perceber, que encontrou algo inesperado.
Uma das gavetas de madeira era mais pesada do que as outras. Marcos puxou, empurrou e bateu levemente no fundo, percebendo uma pequena folga. O fundo era falso; com certo esforço, conseguiu soltá-lo.
Ali dentro havia um pequeno caderno lilás, escondido há tanto tempo que parte das páginas já estava amarelada e deteriorada nas bordas.
Marcos abriu-o com cuidado.
Na primeira página, havia apenas um recado, escrito à mão:
Este não é o único caderno
Se alguma coisa acontecer comigo, todos vão saber.
TENHO PROVAS
Marcos encarou aquelas palavras por alguns segundos encarando aquelas palavras.
Depois, fechou o caderno devagar.
Pela primeira vez desde que começara a trabalhar no Sonnenhof, teve a sensação de que talvez as aparições fantasmagóricas, comentadas pelos colegas, não fossem o maior perigo daquele lugar. Logo após esse pensamento, e de cogitar que tudo não passava de invenção, o inexplicável aconteceu.
— Gustavo, olhe isto aqui.
Antes que o amigo se aproximasse, um dos monitores das câmeras de segurança piscou.
Marcos levantou os olhos.
A imagem voltou ao normal.
— Essas câmeras vivem fazendo isso? perguntou.
— Às vezes, travam. Por quê?
Marcos não respondeu.
Na câmera que monitorava o corredor do segundo andar, algo acabara de passar rapidamente diante da lente.
Ele retrocedeu alguns segundos na gravação.
Ambos se aproximaram da tela.
Uma jovem surgiu no início do corredor.
Ela estava descalça.
Vestia uma saia curta e uma blusa clara; os cabelos compridos balançavam enquanto corria desesperadamente. De vez em quando, olhava para trás, como se alguém a perseguisse.
Gustavo perdeu o sorriso.
— Isso é agora?
Marcos conferiu o horário no canto da tela.
03h17.
Era uma transmissão ao vivo.
— É.
A jovem desapareceu no fim do corredor.
Marcos mudou rapidamente para a próxima câmera.
Ela reapareceu na escada.
Subia os degraus correndo.
— Ligue para alguém— disse Gustavo.
— Para quem?
— Sei lá. Para o síndico, para a polícia... Essa guria está fugindo de alguém.
Marcos selecionou a câmera do andar superior.
Nada a declarar.
Em seguida, a câmera do corredor superior é acionada.
Nada também.
Ambos esperaram.
Então, ela surgiu de novo.
Desta vez, caminhando.
Muito mais devagar.
Parou diante da escada que levava ao sótão.
Permaneceu imóvel por alguns segundos.
Gustavo inclinou-se em direção à tela.
— Por que ela parou?
A jovem virou a cabeça.
Não olhou para trás.
Ele olhou diretamente para a câmera.
Marcos sentiu um arrepio subir pela nuca.
Apesar da imagem granulada, havia algo de estranho em seu rosto.
Ela parecia estar chorando.
Então mexeu os lábios.
Nenhum som saiu dos alto-falantes.
— O que ela disse? — perguntou Gustavo.
Marcos aproximou o rosto da tela.
A jovem repetiu.
Desta vez, lentamente.
Não me deixem levar.
Gustavo recuou.
— Marcos...
A imagem desapareceu.
Todas as câmeras ficaram pretas simultaneamente.
Por alguns segundos, a recepção mergulhou em silêncio absoluto.
O sistema, então, voltou a funcionar.
Marcos começou a procurar a jovem nas imagens das câmeras.
Segundo andar. Vazio.
Terceiro andar. Vazio.
Escadas vazias.
Sótão.
A lareira estava acesa.
Marcos franziu a testa.
— A lareira não estava apagada?
Gustavo não respondeu de imediato; apenas se aproximou ainda mais do monitor.
As chamas ardiam com força, projetando sombras irregulares pelas paredes do antigo salão. As portas da sacada estavam escancaradas, e as cortinas moviam-se com o vento da madrugada.
Uma das cadeiras deslizou alguns centímetros pelo piso.
Sozinha.
Gustavo recuou.
— Você viu isso?
— Vi.
Antes que qualquer um dos dois dissesse mais alguma coisa, a porta da antiga cozinha, hoje usada como despensa, começou a se abrir.
Devagar.
Primeiro, alguns centímetros.
Depois, um pouco mais.
Até que fique completamente aberta.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
A jovem que aparecera nas câmeras surgiu, então, na porta da despensa.
Era ela.
Era a mesma mulher que, minutos antes, corria pelos corredores como se fugisse de alguém.
Desta vez, porém, não correu.
Caminhava lentamente pelo salão.
Marcos e Gustavo acompanharam cada passo pela tela, em completo silêncio.
Ela atravessou o cômodo sem olhar para os lados e seguiu diretamente para a sacada.
— O que ela está fazendo? — murmurou Gustavo.
Marcos não respondeu.
A jovem parou diante da abertura por alguns segundos.
Então, subiu ao parapeito.
— Meu Deus...
Antes que pudessem reagir, ela se lançou.
Marcos levantou-se tão depressa que quase derrubou a cadeira.
— Vamos!
Os dois correram para fora da recepção e atravessaram o residencial em direção ao pátio. Desceram os degraus às pressas, certos de que encontrariam a jovem caída no chão.
Ao chegarem lá, porém, não havia ninguém.
O local está vazio.
Não há sinais de queda.
Não havia sequer uma marca no jardim.
Marcos ainda procurou ao redor, enquanto Gustavo permanecia parado, tentando compreender o que tinham acabado de ver.
— Ela caiu daqui, nós vimos "Ela caiu daqui", disse ele, olhando para a sacada no alto, "nós vimos".
Marcos ergueu os olhos para o sótão.
A escuridão tomava as janelas.
Os dois retornaram à recepção e voltaram imediatamente às câmeras.
A imagem do salão permanecia nítida.
Contudo, a lareira agora estava apagada.
As portas da sacada estavam fechadas.
E a porta da despensa também.
Tudo parecia exatamente como antes.
Como se nada tivesse acontecido.
Naquela madrugada, Marcos e Gustavo não voltaram a conversar sobre o que tinham visto.
Permaneceram atrás do balcão até o amanhecer, lançando olhares frequentes aos monitores, como se esperassem que a jovem surgisse novamente em alguma das câmeras.
Ela não apareceu.
Quando o turno finalmente terminou, Gustavo já havia tomado uma decisão.
— Eu não volto mais a trabalhar de madrugada.
Marcos acreditou que fosse apenas o medo falando. Imaginou que, após dormir e colocar as ideias no lugar, o amigo mudaria de opinião.
Nada mudou. Dois dias depois, Gustavo pediu demissão.
Na justificativa entregue à administradora, escreveu apenas que não havia se adaptado ao trabalho noturno. Não mencionou a jovem correndo pelos corredores, a lareira que se acendera sozinha, a porta da antiga despensa ou o momento em que os dois a viram lançar-se da sacada.
Ele também não mencionou o caderno lilás.
Marcos, por outro lado, decidiu permanecer.
Talvez por curiosidade. Talvez porque, após encontrar aquele caderno escondido no fundo falso do balcão, sentisse que abandonar o Sonnenhof seria o mesmo que deixar uma história pela metade.
Nos plantões seguintes, passou a examinar com mais atenção as poucas páginas que ainda podiam ser lidas. Havia nomes, datas, números de apartamentos, placas de veículos e pequenas anotações espalhadas entre folhas deterioradas pelo tempo.
Marcos tentou estabelecer alguma ligação entre aquelas informações, mas nada parecia fazer sentido.
O caderno também não trazia nome, endereço ou qualquer outro detalhe que pudesse revelar sua autoria.
Marcos continuou trabalhando na recepção enquanto concluía a faculdade de Geografia. As noites no Sonnenhof nunca se tornaram completamente tranquilas, mas ele aprendeu a conviver com certos ruídos, sombras e acontecimentos que preferia não questionar.
Permaneceu ali até concluir a graduação.
Pouco tempo depois de se formar, conseguiu uma oportunidade para trabalhar como professor e deixou definitivamente a recepção do residencial.
O caderno lilás, contudo, foi embora com ele.
Nos dias atuais.
Em 2026, a antiga recepção do Sonnenhof já não funciona como antes.
O balcão permanece vazio.
A ideia de voltar a contratar funcionários deixou de ser considerada pela administração. Não apenas pelos rumores de aparições contadas para quem quisesse ouvir, pelos ruídos inexplicáveis durante a madrugada ou pela quantidade de pessoas que pediram demissão pouco tempo depois de começar a trabalhar ali. Havia também problemas bem mais humanos.
Durante os anos em que a recepção funcionou, alguns funcionários envolveram-se com hóspedes temporários e situações que jamais deveriam ter ultrapassado o balcão. Outros descobriram segredos que preferiram silenciar. Houve quem simplesmente entregasse as chaves e nunca mais retornasse.
Alguns sequer se despediram.
Com o passar do tempo, manter alguém permanentemente naquele espaço deixou de parecer uma boa ideia.
Hoje, as encomendas são organizadas de outra forma, os hóspedes recebem instruções antes de chegar e os moradores aprenderam a conviver com o antigo balcão sem ninguém atrás dele.
Durante o dia, ele parece uma lembrança do tempo em que o Sonnenhof ainda era hotel.
À noite, porém, a impressão é diferente.
Isso ocorre principalmente para quem atravessa o saguão depois da meia-noite e percebe, por alguns segundos, que a cadeira atrás da recepção não está exatamente na mesma posição em que estava antes.
Ou se sente no ar aquele conhecido perfume de laranja.
O balcão continua vazio.
Pelo menos é nisso que todos preferem acreditar.