A Mulher na Piscina
Em Sonnenhof, o silêncio não foi imposto; ele cresceu, como mofo nas paredes de um porão inundado. Não houve assinatura de regras, nem avisos afixados no mural do condomínio. A proibição simplesmente existia, orgânica e antiga, como se as próprias paredes a sussurrassem de geração em geração: a piscina, após as dez da noite, não é lugar para os vivos.
O que mais inquietava não era o tabu em si, mas a ausência de conhecimento sobre quando ele surgira.
Perguntei à senhora do 303, uma das moradoras mais antigas do prédio. Ela me encarou com aqueles olhos que refletiam décadas de segredos, desviando o olhar antes de responder: "Sempre foi assim". Perguntei ao zelador. Ele deixou cair a vassoura e, num gesto lento, murmurou que "não era um assunto que se deve tocar". Até mesmo o labrador vizinho do terceiro andar, um cachorro gordo e sonolento que latia para sua própria sombra, evitava se aproximar daquela área ao anoitecer. Ficava à distância, com o pelo eriçado, rosnando para algo invisível.
Nas noites de verão, quando o ar pesava como um cobertor molhado sobre a cidade, eu observava os moradores passarem pelo corredor em direção ao jardim. Vinham de festas, jantares e encontros. Estavam alegres, rindo, suados. Contudo, ao chegarem à altura da grade da piscina, algo acontecia: o riso falhava, os passos se apressavam e os olhares se desviavam, como se enxergar fosse perigoso. Como se ver algo pudesse torná-lo real.
Foi assim, tentando entender aquele silêncio sem nome, que passei a investigar por conta própria. Levei quase dois anos morando ali para descobrir o nome dela.
Nos anos 70, quando o Sonnenhof ainda era um hotel, havia uma mulher que pertencia à noite assim como as estrelas pertencem ao céu: de maneira completa e inexplicável. Marta. Apenas Marta. Sem sobrenome que eu conseguisse rastrear, sem registro. Era como se tivesse surgido do nada, ou como se alguém tivesse feito questão de apagar seus rastros.
Ela surgia sempre depois da meia-noite, excessivamente impecável para aquele horário: batom intacto, vestido bem passado, cabelos escuros e brilhantes. Os hóspedes que a viam no corredor raramente conseguiam descrever seu rosto com precisão. "Bonita, eu acho", dizia um. "Estranha", comentava outro. "Ela me olhou e, por um instante, não consegui lembrar meu próprio nome." Isso foi o que uma ex-camareira me contou, a única que se dispôs a falar, e depois de três copos de vinho e com as cortinas fechadas, como se as paredes pudessem ouvi-la.
— Ela não era daqui — disse a mulher, apertando o copo com força. — Não era daqui de forma alguma.
Eu insistia em querer saber mais. Ela balançou a cabeça.
"Há coisas que não se perguntam sobre Marta."
O que soube, com certeza, foi do fim: numa madrugada sem data precisa e sem testemunhas conhecidas, o corpo de Marta foi retirado da piscina. O laudo indicou afogamento acidental, e o caso foi encerrado antes mesmo de o frio se instalar. Ninguém apareceu para reivindicar o corpo; nenhuma foto foi publicada nos jornais. Era como se o mundo tivesse concordado, coletivamente, em deixá-la afundar também na memória.
Exceto por um detalhe que uma única testemunha mencionou, quase involuntariamente, antes de silenciar para sempre:
Marta sabia nadar. Marta nadava como se tivesse nascido dentro da água.
Foi só perto do fim desses dois anos de investigação, já sem esperar encontrar mais nada, que tive o primeiro contato com ela — e não pude acreditar.
Era uma madrugada de agosto, abafada a ponto de fazer a pele arder. Cheguei tarde do trabalho e estacionei perto do jardim. Estava prestes a entrar pelo corredor lateral quando ouvi um som que me fez parar.
Braçadas.
Lentas, rítmicas, deliberadas. Braçadas de quem não tem pressa; de quem possui todo o tempo do mundo, ou de quem está além dele.
A piscina estava mergulhada em sombras, mas o reflexo das janelas iluminadas dançava sobre a superfície, onde algo se movia. Algo que cortava a água com uma familiaridade perturbadora, como se aquele fosse seu domínio natural.
Fiquei paralisada; não consegui gritar, nem recuar.
A água, então, parou de se mover.
E ela emergiu.
No centro exato da piscina, um rosto pálido flutuava à superfície com uma lentidão antinatural, como uma lua que surge de trás de uma nuvem negra. Os cabelos escuros espalhavam-se ao redor, como tentáculos; a expressão que ela carregava não denotava sofrimento, nem raiva. Era algo muito pior:
Reconhecimento.
Ela me olhou como quem encontra alguém que buscou por muito tempo.
Seus lábios se moveram. Nenhum som foi emitido, mas eu senti as palavras, como se tivessem sido ditas diretamente dentro do meu crânio:
Você viu. Agora, você sabe.
Sem resistência, sem afogamento, sem qualquer luta, ela foi puxada para baixo. Não afundou; foi levada. Existia uma diferença sutil e absolutamente aterrorizante entre as duas situações, e percebi isso em cada fibra do meu ser.
A superfície tornou-se lisa e perfeita, como se nunca tivesse sido perturbada.
Tentei esquecer. Eu era especialista em me convencer de que a exaustão gerava ilusões.
Os dias se passaram.
Na quinta manhã, encontrei uma poça de água no corredor do meu apartamento, entre a porta e o banheiro. Não havia chovido, nem havia vazamento em nenhum cano. A água exalava um leve cheiro de cloro.
Limpei e não pensei mais no assunto.
Na sétima manhã, fios. Longos, negros e úmidos. Espalhados sobre meu travesseiro com uma precisão que não parecia aleatória; como se tivessem sido colocados ali enquanto eu dormia, por uma mão que passara pela minha cabeça sem me acordar.
Limpei. Dormi com a luz acesa.
Na décima noite, às três horas e quatorze minutos — sei o horário porque olhei compulsivamente para o relógio, buscando uma âncora na realidade —, acordei.
Não fui despertada por um barulho, mas pela ausência dele. Um silêncio tão absoluto que parecia pressão atmosférica; o tipo de silêncio que precede algo que não deveria acontecer.
Senti uma presença ao meu lado.
Não vi nada, mas senti: o colchão ligeiramente afundado, o ar deslocado e, então, uma respiração. Úmida, fria, irregular, como a de alguém que acabou de sair da água.
O sussurro veio tão perto do meu ouvido que os lábios devem ter roçado minha pele:
"Venha. Vamos dar um mergulho juntas."
Acordei com o travesseiro ensopado.
Com lágrimas que não eram minhas.
Passei semanas evitando a sacada e usando fones de ouvido nas madrugadas para não ouvir os sons que vinham do jardim. Repetia para mim mesma que havia uma explicação lógica para tudo aquilo; eu apenas ainda não a havia encontrado.
Então, em uma madrugada de outubro, o ralo do banheiro começou a gorgolejar sozinho.
Não havia água correndo. O barulho vinha de dentro, como se algo tentasse subir pela tubulação. E então o cheiro: cloro. Denso, sufocante, pesado demais para um banheiro seco.
Segui o rastro como se algo me guiasse até a sala, depois à sacada. Empurrei a porta de vidro como uma sonâmbula.
Olhei para a piscina.
Marta estava em pé na parte mais funda, com a água na altura do peito. Imóvel como uma estátua, exceto pelos olhos, que me encaravam com uma intensidade capaz de atravessar o ar como uma corrente elétrica.
Lentamente, ela levantou o braço e apontou para a água.
Em seguida, apontou para um local pouco frequentado do prédio.
Lá, parecia dizer sem palavras: a resposta está lá.
Foi então que eu o avistei.
À beira da piscina, parcialmente oculto pelas sombras das palmeiras, estava uma figura masculina. Parada e rígida, voltava-se para a água com a postura de quem observa uma propriedade, e não com curiosidade, mas com posse.
Não consegui ver seu rosto, mas algo em sua postura me fez recuar instintivamente, como um animal que reconhece o predador antes mesmo de vê-lo.
Marta olhou para ele. Depois, olhou para mim. E seus lábios formaram, com uma urgência que nunca antes havia demonstrado:
"Ele ainda está aqui."
A escuridão engoliu a cena tão abruptamente que pensei ter piscado e perdido segundos: o homem simplesmente deixou de existir, como uma vela que se apaga. Marta deslizou para baixo da superfície sem ondas, sem ruído, sem vestígios.
E então, vindo do jardim vazio, uma voz que não pertencia a nenhuma garganta humana que eu já tivesse ouvido cortou o silêncio como uma faca enferrujada:
"Ele está acordado."
Desde aquela noite, os rastros vêm aparecendo.
Pegadas masculinas e úmidas. Surgem de dentro da piscina, sem marcas de entrada, e seguem em linha reta para fora dos portões do condomínio, em direção à cidade, a um lugar que não consigo mapear. Nunca há marcas de retorno. Como se ele partisse para nunca mais voltar.
No entanto, ele sempre volta.
Sempre que as pegadas aparecem, algo acontece pela manhã. O antigo hotel foi transformado em residencial e em moradias de curta temporada, onde os hóspedes alugam apartamentos reformados. Eles acordam sem memória das horas transcorridas entre a meia-noite e o amanhecer. Não é um esquecimento comum; é uma ausência cirúrgica. Um buraco negro na consciência, entre 0h e 5h33.
Ninguém registra ocorrências; ninguém discute o assunto.
O pacto de silêncio expande-se, invisível e inevitável, como água que se infiltra nas fundações.
Eu acreditava que Marta fosse a ameaça.
Hoje, entendo que estava completamente errada.
Marta é o alarme.
Ela não assombra; ela avisa. Cada aparição, cada sussurro, cada fio de cabelo deixado sobre meu travesseiro foi uma tentativa desesperada de comunicação de alguém que morreu antes de conseguir contar o que sabia. Ela não afundou naquela piscina por acidente, nem escorregou. Ela foi colocada ali por alguém, ou por algo, que ainda habita entre nós, que sai da piscina de madrugada e retorna antes do sol nascer, alimentado por ausências que ninguém nota e por memórias que ninguém guarda.
O que ocorreu naquela noite? O que ela viu? O que ela sabia?
Às vezes, nas noites mais frias, quando o vento cessa completamente e o condomínio mergulha em um silêncio antinatural, pergunto-me se há algo sob a água que não seja Marta, algo mais antigo, mais paciente, que usa a piscina como portal. Algo que, em vida, Marta descobriu e que a silenciou.
E que ainda aguarda alguém que se aproxime o suficiente para ver.
Mas volto àquela madrugada de outubro, ao que aconteceu logo depois de a voz dizer "ele está acordado": não consegui mais dormir.
As palavras de Marta ainda ecoavam em minha mente.
Ele ainda está aqui.
Eu não fazia ideia de quem era "ele". Tampouco sabia se o homem que avistei próximo à piscina era realmente humano.
Entretanto, algo nas pistas me perturbava mais do que a própria manifestação.
Elas não se originavam na piscina.
Elas iniciavam a caminhada alguns metros à frente.
Como se alguém tivesse saído da água sem deixar qualquer vestígio no chão.
Na manhã seguinte, decidi examinar o jardim.
Esperei o movimento diminuir e fui até a piscina. O sol já estava alto, e tudo parecia estranhamente comum: crianças brincavam no gramado, um morador lia entre as árvores e uma toalha estava esquecida sobre uma cadeira.
Nada indicava que, poucas horas antes, uma mulher morta teria saído daquela água.
Ainda assim, dirigi-me ao local onde as pegadas haviam desaparecido.
Havia uma marca no chão.
Apenas uma.
Parecia a marca de um sapato antigo, pesado e completamente encharcado.
Ao me aproximar, percebi algo estranho.
A marca não estava voltada para o portão.
Ela se dirigia ao edifício.
Um frio percorreu-me a espinha.
Retrocedi.
No fim daquela mesma tarde — ainda abalada com a marca voltada para o edifício —, voltei a procurar a antiga camareira.
Desta vez, ela se negou a me receber.
Abriu somente uma fresta da porta.
Quando mencionei Marta, o rosto dela mudou.
Ao falar sobre o homem, ela fechou os olhos.
— Você o viu? — perguntou ela, num sussurro.
Fiz que sim com a cabeça.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, então murmurou:
— Então, ele também a viu.
— Quem é ele? — insisti.
A mulher segurou a porta com as duas mãos.
— Não sei o nome.
— Mas você sabe quem ele era? — perguntei.
Ela respirou profundamente.
— Era um hóspede.
A palavra soou insuficiente para descrever o medo em seu rosto.
— Um hóspede de muitos anos atrás? — quis confirmar.
— Antes que o hotel deixasse de ser hotel.
— E o que ele fazia?
Ela me olhou fixamente.
— Nada.
Aquilo me deixou perplexa.
— Como assim?
— Ele nunca fazia nada.
A velha aproximou o rosto da fresta e completou:
— Era exatamente isso que o aterrorizava.
Ela relatou que o homem sempre aparecia sozinho, jamais fazia reservas e nunca era visto entrando pela entrada principal. Às vezes, ele simplesmente estava sentado no salão, embora ninguém se lembrasse de tê-lo visto entrar.
Ele não conversava com os funcionários.
Ele não bebia.
Ele não comia.
Não dormia.
Havia, contudo, algo que todos os antigos empregados aprenderam a fazer:
Nunca olhá-lo por muito tempo.
— Por quê? — perguntei.
Ela levou um tempo para responder.
— Porque, após alguns segundos, você começava a esquecer algo.
— O quê?
— Primeiro, as coisas triviais — disse ela, comprimindo os lábios. — O nome de alguém. O número do quarto. Uma conversa que teve naquela manhã.
Permaneceu em silêncio por um momento, e então continuou:
— Depois, coisas mais significativas.
Senti minha garganta secar.
— Como o quê?
— Pessoas.
A palavra pairou entre nós.
— Pessoas? — repeti.
Ela concordou.
— Alguns hóspedes acordavam e perguntavam por alguém de quem ninguém mais se lembrava. Um amigo, uma mulher, um funcionário. Era como se aquela pessoa nunca tivesse existido.
Pensei imediatamente nos apartamentos de curta temporada de hoje. Isso ocorria com as pessoas que chegavam ao Sonnenhof e desapareciam após poucos dias — nós, moradores, não conseguíamos dizer exatamente quando certos hóspedes haviam ido embora.
— E Marta? — perguntei.
A expressão da velha se endureceu.
— Marta descobriu.
— Descobriu o quê?
— Que ele não era um hóspede.
Ela fechou os olhos.
— Era o que restava depois que os hóspedes se retiravam.
Não consegui responder.
A velha continuou:
— Marta começou a notar que algumas pessoas entravam no hotel acompanhadas por ele; depois, desapareciam. Ninguém questionava, ninguém procurava.
— E ela contou para alguém? — perguntei.
— Tentou.
— Para quem?
A mulher olhou para o corredor atrás de mim antes de responder.
— Para mim.
Fiquei paralisada.
— Ela disse que viu aquele homem dentro da piscina.
Meu coração disparou.
— Onde ele estava? — consegui perguntar.
— No fundo.
A velha engoliu em seco.
— Em pé.
Ela relatou que, certa madrugada, Marta encontrou o homem parado no fundo da piscina, embora a água estivesse completamente limpa e ninguém tivesse entrado nela.
Ele estava de olhos abertos.
Olhando para cima.
Como se estivesse à espera de alguém.
— Marta observou-o? — perguntei.
— Por alguns segundos.
A velha baixou o tom de voz.
— E então ele abriu os olhos.
— Mas você disse que ele já estava de olhos abertos.
Ela me fitou.
— Não eram os olhos dele que estavam fechados.
Um arrepio percorreu-me o corpo.
— O que estava fechado, então?
A resposta veio quase como um sussurro.
— A boca.
Ficamos em silêncio.
Naquele momento, percebi que havia algo que a velha ainda não revelara.
— O que aconteceu depois? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Marta descobriu que ele não precisava matar ninguém.
— Então, como as pessoas desapareciam?
A velha desviou o olhar.
— Ele faria com que ninguém se lembrasse delas.
A porta começou a se fechar. Segurei-a antes que desaparecesse.
— E por que a Marta morreu? — perguntei, num último fôlego.
A idosa ficou paralisada. Por alguns segundos, pensei que ela não responderia. Então, declarou:
— Porque ela tentou fazer alguém lembrar.
A porta fechou-se.
Voltei para o apartamento com a mente tomada por dúvidas e sentimentos conflitantes, sem saber qual predominava. Fiquei parada à porta, imersa no silêncio, tentando organizar os pensamentos sem sucesso. A incerteza me consumia, enquanto refletia sobre o passado e as incertezas do futuro.