O Quarto Sem Maçaneta

Não costumo falar sobre aquela noite.

Durante anos tentei convencer a mim mesmo de que tudo não passou de exaustão, estresse ou algum tipo de pesadelo vivido acordado.

Mas existem lembranças que permanecem nítidas demais para serem ignoradas.

E aquela noite continua exatamente igual na minha memória.

Aconteceu há cinco anos.

Eu estava viajando a trabalho e me hospedei em um hotel antigo no interior do estado.

O prédio tinha mais de cem anos.

Corredores estreitos.

Escadas de madeira.

Tapetes gastos pelo tempo.

Nada parecia particularmente assustador.

Apenas antigo.

Recebi a chave do quarto 312.

A recepcionista parecia distraída quando me entregou a chave.

Mas, antes que eu subisse, disse algo estranho:

— Se ouvir alguém bater na porta durante a madrugada, não abra.

Sorri.

Achei que fosse alguma brincadeira.

Ela não sorriu de volta.

Subi sozinho.

O quarto era simples.

Uma cama.

Uma escrivaninha.

Uma poltrona perto da janela.

Tomei banho e adormeci rapidamente.

Acordei às 2h47 da madrugada.

Alguém batia na porta.

Três batidas lentas.

Toc.

Toc.

Toc.

Fiquei imóvel na cama.

Esperei alguns segundos.

Silêncio.

Então ouvi novamente.

Toc.

Toc.

Toc.

Levantei.

Caminhei até a porta.

Olhei pelo olho mágico.

Não havia ninguém.

Voltei para a cama.

Minutos depois as batidas retornaram.

Mais fortes.

Mais insistentes.

Toc.

Toc.

Toc.

Aquela sequência se repetiu durante quase uma hora.

Até que, de repente, parou.

O silêncio foi ainda pior.

Porque logo depois ouvi passos.

Lentos.

Arrastados.

Do lado de fora do quarto.

Como alguém caminhando pelo corredor.

Os passos pararam exatamente diante da minha porta.

E permaneceram ali.

Imóveis.

Escutando.

Eu podia sentir.

Não sei explicar como.

Mas sabia que havia alguém parado do outro lado.

Esperando.

Passei o restante da madrugada acordado.

Quando amanheceu, saí do quarto.

O corredor estava vazio.

Na recepção, perguntei sobre as batidas.

A funcionária ficou pálida.

Disse apenas:

— O senhor ouviu também?

Não respondi.

Ela também não explicou mais nada.

Naquela noite pensei em mudar de hotel.

Mas precisava permanecer apenas mais uma diária.

Resolvi ignorar.

Foi um erro.

Por volta das três da manhã acordei novamente.

Dessa vez com a sensação de que havia alguém dentro do quarto.

Abri os olhos.

A porta permanecia fechada.

A janela também.

Mas havia uma figura parada ao lado da poltrona.

Escura.

Alta.

Imóvel.

Não conseguia distinguir o rosto.

Apenas a silhueta.

Fiquei paralisado.

Quando pisquei, ela desapareceu.

Levantei imediatamente.

Acendi todas as luzes.

Nada.

Nenhuma pessoa.

Nenhum sinal de invasão.

Voltei para a cama tentando controlar o pânico.

Foi quando ouvi o som.

A maçaneta.

Girando.

Lentamente.

Mas não do lado de fora.

Do lado de dentro.

Como se alguém segurasse a maçaneta e tentasse abrir a porta.

Corri até ela.

A maçaneta parou.

Tentei abrir.

Não consegui.

A porta simplesmente não abria.

Girei a chave.

Empurrei.

Puxei.

Nada.

Era como se algo estivesse segurando a porta pelo outro lado.

Peguei o celular para ligar para a recepção.

Sem sinal.

Sem internet.

Sem linha.

A energia começou a oscilar.

As luzes piscavam.

E então ouvi vozes.

Sussurros.

Vários.

Vindos de todos os cantos do quarto.

Alguns pareciam muito próximos.

Outros pareciam vir de dentro das paredes.

Não consegui entender nenhuma palavra.

Mas sabia que estavam falando comigo.

O ar ficou pesado.

Difícil de respirar.

Olhei para a janela.

E vi algo refletido no vidro.

Não era meu reflexo.

Havia pessoas atrás de mim.

Muitas.

Homens.

Mulheres.

Crianças.

Todos imóveis.

Observando.

Virei imediatamente.

O quarto estava vazio.

Quando olhei novamente para o vidro, eles continuavam lá.

Dessa vez mais próximos.

Sorriam.

Não era um sorriso humano.

Era algo errado.

Artificial.

Como máscaras tentando imitar felicidade.

Corri para a porta.

Comecei a bater.

A gritar.

A pedir ajuda.

Ninguém respondeu.

As vozes aumentaram.

Os sussurros se transformaram em murmúrios.

Depois em gritos.

Então ouvi uma frase.

Clara.

Nitidamente.

Tão próxima que senti alguém falando junto ao meu ouvido.

— Você não consegue sair porque agora está conosco.

As luzes apagaram.

Completamente.

Não lembro do que aconteceu depois.

Acordei no dia seguinte caído no chão.

A porta estava aberta.

O celular funcionava normalmente.

O quarto parecia exatamente igual.

Como se nada tivesse acontecido.

Desci imediatamente para a recepção.

A mesma funcionária estava lá.

Quando me viu, apenas perguntou:

— Eles deixaram você ir embora?

Não respondi.

Fui embora sem olhar para trás.

Anos depois descobri algo.

O hotel havia sido construído sobre os restos de uma antiga enfermaria que funcionou durante uma epidemia no início do século passado.

Centenas de pessoas morreram naquele local.

Muitas foram enterradas sem identificação.

Muitas sequer tiveram família para reclamar seus corpos.

Desde então, nunca mais voltei.

Mas ainda acordo algumas madrugadas com a sensação de ouvir três batidas lentas na porta do quarto.

Toc.

Toc.

Toc.

E, por alguns segundos, tenho medo de abrir os olhos.

Porque uma parte de mim acredita que, se eu olhar para o canto escuro do quarto, encontrarei alguém esperando.

Observando.

Como naquela noite.

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A Sacada 107