O Quarto Sem Maçaneta

Costumo evitar comentar sobre aquele dia que se fixou em minha memória de maneira tão intensa e marcante. Durante anos, tentei pensar que era tudo resultado do cansaço acumulado, do estresse cotidiano ou, quem sabe, de um sonho vívido que eu confundi com a realidade enquanto estava acordado. Porém, por mais que eu tentasse racionalizar e afastar esses pensamentos, havia recordações que estavam tão vivas que não podiam ser ignoradas ou descartadas como meras ilusões de uma mente fatigada.

Aquela noite específica permaneceu na minha mente exatamente como era, inalterada pelo tempo, como se estivesse gravada em alta definição. O incidente ocorreu há cerca de cinco anos, durante uma viagem a trabalho. Eu estava hospedado em um hotel antigo situado no interior do estado, uma construção que carregava mais de um século de história em suas paredes. O lugar possuía corredores estreitos e sombreados, escadas de madeira que rangiam a cada passo, e tapetes desgastados e envelhecidos pelo uso. Nada no ambiente parecia realmente aterrorizante; era simplesmente uma construção antiga, com suas próprias marcas da passagem do tempo.

Recebi a chave do quarto 312 das mãos da recepcionista, que me entregou o objeto de maneira um tanto apática, sem muito entusiasmo ou simpatia. Contudo, antes de eu subir para meu quarto, ela proferiu um comentário peculiar, quase uma advertência despretensiosa: “Se ouvir alguém batendo na porta durante a madrugada, não abra.” Naquele momento, sorri, acreditando que se tratava apenas de uma piada sem graça ou uma brincadeira de mau gosto, dada a atmosfera antiga do hotel. Ela, por sua vez, ela, por sua vez, parecia séria, sem corresponder ao meu sorriso, talvez um tanto apreensiva.

Subi as escadas sozinho, sentindo uma mistura estranha de curiosidade e desconforto, mas nada que fosse especialmente alarmante. O quarto era simples, equipado apenas com o básico: uma cama, uma escrivaninha e uma poltrona perto da janela. Após um rápido banho, deitei na cama e adormeci com facilidade, talvez por conta da exaustão. Entretanto, a calma daquela noite foi abruptamente interrompida quando, às 2h47 da madrugada, acordei com um som estranho: alguém batia na porta do quarto de maneira lenta e pausada. O toque era composto por três batidas distintas, claras e ritmadas – “Toc. Toc. Toc.”.

Permaneci de forma completa imóvel na cama, paralisado pelo medo ou pela surpresa, não consigo afirmar, na expectativa de que aquilo fosse apenas um engano ou um ruído vindo de outro lugar. O silêncio voltou a reinar por alguns segundos, até que o som das batidas retornou com a mesma intensidade e ritmo. Virei-me de modo lento e levantei da cama para ir até a porta, curioso e apreensivo. Quando espreitei pelo olho mágico, não havia de modo absoluto ninguém do lado de fora. Voltei para a cama, tentando acalmar meus nervos, mas, minutos depois, as batidas retornaram, desta vez mais fortes e insistentes. O padrão de “Toc. Toc. Toc.” persistiu por quase uma hora, em um tormento que parecia interminável.

De repente, o som cessou, mergulhando tudo em um silêncio já perturbador e inquietante. Logo após essa pausa, comecei a ouvir passos lentos e arrastados no corredor, como se alguém andasse vagarosamente, pesadamente. Os passos pararam bem à minha porta, permanecendo imóveis, como se a presença escutasse meus movimentos, aguardando que eu fizesse algo, qualquer reação.

Eu podia sentir essa presença, mesmo sem conseguir vê-la. Era uma sensação intensa, quase palpável, que permeava o ambiente, criando uma tensão insuportável. Algo dentro de mim sabia com certeza que alguém estava parado do outro lado da porta, esperando pelo momento certo, seja para entrar ou para simplesmente me oferecer companhia silenciosa. Passei o restante da madrugada sem conseguir dormir, preso naquela angustiante espera.

Quando o dia finalmente amanheceu, deixei meu quarto e percorri os corredores silenciosos e vazios até a recepção, buscando respostas. A mesma funcionária que me entregara a chave estava ali. Perguntei a ela sobre as batidas e os passos que escutei à noite, e notei sua palidez imediata. Sem rodeios, ela apenas me perguntou: “O senhor também ouviu?”. Não respondi, e ela não acrescentou mais nada, como se escolhesse cuidadosamente suas palavras para não aumentar meu temor.

Embora considerasse trocar de hotel naquela manhã, optei por permanecer, já que precisava ficar apenas mais uma noite para concluir minha viagem a trabalho. Decidi ignorar o que ocorrera, tentando convencer a mim mesmo de que foram meras coincidências desconfortáveis, porém inocentes. Contudo, foi um erro que custou caro. Por volta das três da manhã do segundo dia, acordei novamente sentindo uma presença no quarto, distinta e aterrorizante. Abri os olhos com dificuldade e, para meu horror, vi uma figura parada ao lado da poltrona junto à janela.

Aquela forma era escura e alta, permanecendo imóvel, sem que eu pudesse identificar qualquer traço facial ou expressão: apenas uma silhueta obscura, envolta em mistério e ameaça. Minha paralisia foi instantânea e total, um medo primitivo que me impediu de reagir. Fiquei em estado de choque até que, num piscar de olhos, a sombra desapareceu, como se nunca tivesse existido.

Levantei-me imediatamente, procurando qualquer fonte de luz no quarto para dissipar aquele sentimento. Acendi todas as lâmpadas disponíveis, iluminando cada canto, mas não encontrei nada. Não havia sinais de invasão, nem indícios da presença daquela entidade aterrorizante. Tentei acalmar meu coração acelerado e voltei para a cama na esperança de que aquela sensação se dissipasse, mas então escutei algo ainda mais aterrador: o som da maçaneta da porta girando lentamente, não do lado de fora, mas do lado de dentro, como se alguém estivesse tentando abrir a porta, segurando a maçaneta do interior do quarto.

Corri até a porta tentando abri-la, mas parecia que algo ou alguém a segurava firmemente do outro lado, impedindo sua abertura. Girei a chave, empurrei, puxei: nada adiantava. A porta permanecia trancada, imóvel como uma barreira intransponível. Busquei então o celular para pedir ajuda, mas não havia sinal, internet nem linhas telefônicas disponíveis. Como se isso não bastasse, a energia começou a oscilar e as luzes do quarto passaram a piscar intermitentemente, aumentando ainda mais a atmosfera de terror.

Repentinamente, comecei a ouvir vozes sussurrando por todo o ambiente, sons vindos de direções diferentes, algumas muito próximas e outras surgindo das próprias paredes. Eram murmúrios ininteligíveis, palavras desconexas, mas que eu sentia serem direcionadas a mim. O ar tornou-se pesado, a respiração dificultosa, como se a própria atmosfera estivesse sendo invadida por uma força invisível e desconhecida. Olhei para a janela e percebi algo refletido no vidro que não era meu reflexo: várias pessoas estavam ali atrás de mim — homens, mulheres, crianças — todos imóveis, me observando com olhares fixos.

Assustado, virei-me de forma rápida para o quarto, que estava de modo completo vazio. Quando olhei de volta para o vidro, aquelas figuras continuavam ali, agora mais perto, e sorrindo para mim: um sorriso estranho, não humano, algo grotesco e artificial, que parecia mais uma máscara desesperada para simular felicidade do que uma expressão genuína. O pânico dominou meu ser, e corri até a porta, batendo e gritando por socorro, mas nenhuma resposta veio das paredes ou dos corredores silenciosos.

As vozes, antes sussurros, aumentaram de volume e se transformaram em murmúrios intensos e em gritos desesperados. Então, entre o caos sonoro, uma frase ecoou clara e nitidamente ao meu ouvido, tão próxima que pareceu um sussurro feito bem ao lado do meu rosto: “Você não consegue sair porque agora pertence a nós”. Nesse momento, as luzes se apagaram completamente, mergulhando o quarto em uma escuridão absoluta.

Após essa experiência, não consigo recordar o que ocorreu, mas sei que acordei no chão do quarto no dia seguinte, com a porta aberta e o telefone funcionando de forma normal, como se nada tivesse acontecido. O quarto estava exatamente como antes e a recepcionista, ao me ver, apenas perguntou com um olhar carregado de mistério: “Eles deixaram você sair?”. Sem palavras, saí com rapidez do hotel, sem olhar para trás.

Anos depois, descobri que o hotel fora construído sobre os restos de uma antiga enfermaria onde centenas de pessoas faleceram durante uma epidemia no início do século passado. Muitos dos mortos foram enterrados sem identificação, sem familiares para reivindicar seus corpos. Desde então, nunca mais voltei ao lugar, mas ainda, em noites silenciosas, acordo com a sensação de ouvir três batidas lentas na porta do meu quarto “Toc. Toc. Toc.”. E, por alguns segundos, um medo profundo me impede de abrir os olhos, pois uma parte de mim acredita que, se olhar para o canto escuro do quarto, encontrará alguém esperando, observando, exatamente como naquela fatídica noite.

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