O Que Antônio Me Contou
Sempre tive uma forte inclinação por histórias de mistério e fenômenos sobrenaturais.
Desde a minha infância, eu pedia que deixassem a luz acesa ao dormir, especialmente após ler algo que me assombrava; ainda assim eu não parava de ler. Essa característica sempre permaneceu em mim. O que de fato se alterou ao longo do tempo foi a minha visão sobre o lado oculto das narrativas, o ambiente em que acontecem, as pessoas que as vivenciam e o espaço físico que abriga o que permanece.
Minha percepção começou a mudar quando me mudei para o Sonnenhof.
Essa transformação intensificou-se com o início do trabalho remoto.
Fui contratada por uma empresa de Minas Gerais para atuar na área de qualidade. Era uma atividade que realizava pelo laptop, com reuniões virtuais e relatórios que enviava pontualmente, sem precisar me deslocar mais do que alguns passos. Assim, durante pouco mais de um ano, meu dia a dia resumia-se a acordar cedo, preparar um café, sentar-me próxima à janela, e trabalhar.
Trabalhando remotamente eu aprendi os horários e as sutilezas do local. Compreendi quando o corredor do segundo andar silenciava, quando o sol iluminava o jardim e quando as sombras das árvores se estendiam sobre a fonte de pedra. Reconheci os sons do prédio: o rangido das escadas, o eco peculiar de uma porta batendo no andar de cima, o barulho da chuva se aproximando antes de qualquer trovão.
Acima de tudo, aprendi que um prédio antigo tem muito a contar quando nos permitimos desacelerar e prestar atenção.
Foi nesse período que realmente conheci Antônio de fato.
Ele mora no Sonnenhof há aproximadamente dez anos, antes mesmo de eu chegar. Era enfermeiro em um hospital da cidade e trabalhava em turnos; por isso, às vezes o encontrava ao descer para o trabalho, e em outras ocasiões o via na área comum em horários de pouco movimento. Enquanto trabalhei presencialmente, nossas conversas se restringiam a acenos nos corredores e, no máximo, trocávamos algumas palavras sobre o elevador inexistente antes e a escada que cansa.
Desde que passei a trabalhar em casa, nossos diálogos tornaram-se mais profundos.
Antônio é uma pessoa reservada e não é do tipo que fala por falar. Contudo, há algo nele, provavelmente devido à sua profissão ou aos seus dez anos de experiência naquele prédio, que faz com que, ao decidir se pronunciar, o escutem com atenção.
A primeira conversa mais longa que tivemos ocorreu numa quarta-feira à tarde. Desci para pegar uma encomenda e ele voltava de um turno matinal, com aquela exaustão típica de quem passou horas cuidando de outros. Sem planejamento, paramos na antiga recepção e conversamos por quase uma hora.
Perguntei, sem saber bem por quê, se ele achava o prédio estranho.
Olhou-me por um instante, analisando-me, ponderando se eu era alguém com quem gostaria de ter aquele tipo de diálogo.
Então, puxou uma cadeira encostada na parede e sentou-se.
— "Estranho" é uma palavra muito curta para descrever este lugar — disse ele.
Antônio não é supersticioso; fez questão de afirmar isso naquele dia e já reiterou a posição em conversas posteriores.
— Eu passo a maior parte do tempo em um hospital — comentou. — Já vi pessoas falecerem de formas comuns. Já testemunhei famílias em negação, já observei aquelas que aceitam rapidamente, já presenciei situações que nenhum exame pode explicar. Aprendi a não desconsiderar comentários.
Foi essa postura nem crente nem cético, apenas atento, que me levou a confiar nas histórias que ele compartilhou.
Ele não contava com o entusiasmo de quem deseja impressionar. Contava com a objetividade de quem descreve o que viveu e ouviu, sem exageros e sem omitir o que pudesse ser inconveniente para o relato.
A primeira história falava sobre uma moradora que se mudara há poucos meses. Ela vivia sozinha no terceiro andar e acordava, frequentemente, no meio da noite com a sensação de que havia alguém em seu quarto.
Embora não houvesse ninguém à vista, ela permanecia em estado de vigilância.
A sensação que relatou a ele era profundamente intensa, especialmente nas noites. Por isso, decidiu apoiar uma cadeira contra a porta do seu quarto antes de se deitar, como um método de proteção. Contudo, tinha consciência de que, independentemente do que estivesse gerando essa inquietação, uma simples cadeira não seria capaz de garantir que a porta permanecesse fechada.
A moradora chegou a procurar um outro apartamento para alugar no mesmo residencial, pois considerava o local muito bonito e tranquilo, apesar da situação estranha que estava passando. No entanto, depois de alguns meses, decidiu mudar-se, deixando para trás até mesmo móveis e objetos que havia comprado para decorar o espaço do seu jeitinho.
Antônio soube, tempos depois, que o apartamento teve mais dois moradores nos anos seguintes; nenhum deles permaneceu por mais de seis meses.
A segunda história foi sobre um casal que morou no apartamento 206 por dois anos. Depois de algum tempo, não se sabe exatamente quando o casal começou a notar que objetos apareciam em lugares diferentes de onde haviam sido deixados. Por exemplo, um copo que estava na cozinha surgia na sala, um livro da estante aparecia na cama e uma chave, deixada na gaveta, era encontrada na porta da frente.
O casal mencionava que nunca testemunhara os objetos se movimentarem; eles apenas percebiam que estavam em locais diferentes do esperado. Comentavam, quase rindo da situação com alguns vizinhos próximos, que preferiam assim a realmente ver algo se mover bem à frente deles.
Passaram um bom tempo acreditando que isso tratava de descuido do outro e se irritando, até perceberem que ambos compartilhavam a mesma história: “eu não mexi nisso”.
De acordo com Antônio, a decisão de deixar o apartamento não se deu apenas pelo receio de não saber como lidar com a situação. A maior motivação foi a preocupação de que o “ser” ou “fantasma” pudesse representar uma ameaça, algo maligno que pretendia prejudicá-los. O casal temia que os eventos misteriosos se intensificassem, transformando-se em um risco para suas vidas.
O relato sobre paralisia do sono ficou em terceiro lugar.
Dois moradores de andares diferentes não tinham ideia da experiência um do outro, pelo menos na época mencionada. Antônio notou a semelhança ao conversar com cada um deles, em ocasiões diferentes, e percebeu que os relatos eram praticamente iguais.
Ambos acordavam frequentemente, incapazes de se mover. Olhos abertos. Consciência intacta. Corpo completamente paralisado.
— A paralisia do sono é um fenômeno reconhecido e possui explicação médica — comentou Antônio; era exatamente o tipo de informação que eu esperava dele.
— O que realmente me chamou a atenção foi uma outra questão.
Nos dois casos, durante a paralisia, havia uma pressão no peito. Eles relataram que, no meio do episódio de paralisia, conseguiam perceber sombras se movendo de um lado para o outro no ambiente. Além disso, em algumas dessas experiências, figuras mais escuras que a própria escuridão estava a poucos centímetros de seus rostos, observando-os intensamente. Apenas um deles, que chamarei de Joãozinho, compartilhou ter escutado uma risadinha sinistra enquanto tentava, em desespero, se mover. E a segunda e última vez até agora foi enquanto ele tomava banho à noite, por volta das 22h15min. Ele disse que ouviu a risadinha do “capiroto” quando escorregou no tapete do box e quase caiu ali.
Entretanto, foi a última história que me impressionou de maneira singular.
Antônio levou mais tempo para começar a contar esse relato. Contou as outras três, observamos o corredor escurecer conforme a tarde avançava e, então, ele permaneceu em silêncio por um tempo antes de continuar.
— Você já ouviu algo peculiar vindo de cima? — perguntou. — À noite, quero dizer. Por volta das duas da manhã.
Disse que não; pelo menos, nada que conseguisse reconhecer.
Ele concordou lentamente com a cabeça.
— Algumas pessoas ouvem. Outras nunca ouvirão. Nunca entendi o motivo — comentou.
A história era sobre um casal que habitou o terceiro andar, cerca de quatro anos atrás. Chegaram ao Sonnenhof sem saber do histórico do prédio, sem conhecer os antigos moradores e sem ouvir nada de ninguém. Eram pessoas que alugaram o apartamento apenas pelo preço e pela estética, sem preocupações.
Após cerca de três semanas, a mulher acordou no meio da noite com a certeza de que uma festa acontecia no prédio.
Não era uma impressão vaga. Era um som nítido: música, vozes, o tilintar de taças. Ruído típico de uma reunião elegante, algo que se associa a fotos antigas e roupas de época. Vinha do andar superior, claramente do sótão, com uma nitidez que ela achou estranha, já que o sótão ficava a dois andares acima.
Ela acordou o marido, mas ele não ouviu nada.
Permaneceram em silêncio por um longo tempo, ambos deitados na escuridão; ela escutava com nitidez, enquanto ele permanecia alheio. Ela tentou descrever o que ouvia, mas ele, acreditando que ela sonhava, não percebeu que ela já estava acordada.
Na noite seguinte, o fenômeno ocorreu novamente. A mesma festa, os mesmos sons, a mesma sensação de algo vindo de outro tempo.
Ela foi ao sótão investigar no dia seguinte, encontrou o local escuro e tranquilo, com o cheiro de madeira antiga, mas nada mais. Ao retornar ao apartamento, os sons continuavam, provenientes exatamente do lugar onde estivera.
Perguntei se o marido chegou a ouvir algo alguma vez.
— Nunca — respondeu Antônio. — E foi isso que começou a desgastá-los. Ao acordar de madrugada, ele não ouvia nada, e ela não conseguia provar o que ouvia.
Ela decidiu falar com os outros moradores do terceiro andar para saber se já tinham ouvido algo semelhante ou igual. Começou a bater de porta em porta, uma após a outra. Duas pessoas com quem conversou naquele instante confirmaram que, de fato, já tinham escutado. Uma delas comentou que se tratava de um fenômeno antigo, "normal", e que costumava ser ouvido as vezes, sempre vindo do sótão. A vizinha disse que aprendeu a ignorar e tentar voltar a dormir.
— Alguns escutam algo, vários não escutam absolutamente nada — disse Antônio. — Até hoje não sei explicar o porquê.
Em uma noite em particular, que ocorreu algumas semanas depois. A festa estava mais animada do que nunca: melodias, vozes e risos. E então, em meio a todo aquele barulho, ela começou a perceber outra coisa. Uma voz que se destacava das demais. Sem festividade. Clamava por ajuda. Frágil, quase encoberta pelos outros sons, mas ali.
— Ela me confidenciou que sentiu como se estivesse ouvindo algo que não deveria ser presenciado — disse Antônio. — Que toda a celebração estava ali para mascarar aquele som. O casal mudou-se no mês seguinte. Ficamos em silêncio por um instante.
— Você acha que era real? — perguntei.
Antônio olhou para o teto antes de responder. Lá em cima, o sótão: o antigo salão de festas, com as janelas de madeira fechadas.
— Acredito que ela ouviu algo — respondeu ele, finalmente. — O que era, não sei. Mas, quando uma pessoa objetiva, que não acredita em nada disso, começa a bater na porta dos vizinhos de madrugada para perguntar se eles também ouvem, é porque de fato ouve.
Retornei ao meu apartamento naquela tarde com a mente carregada, de uma forma que conheço bem. Era a mesma sensação de quando, criança, terminava um livro que não deveria ter lido: a história chegava ao fim, mas não ia a lugar nenhum. Permanecia ali, dentro de mim, ocupando espaço.
Meu companheiro estava em casa quando cheguei, tocando violão na sala, um hábito que amo justamente por ser tão constante, previsível e reconfortante. O som do violão espalhando-se pelo apartamento é o oposto exato de uma assombração.
Sentei-me no sofá e escutei, em silêncio, por um tempo.
Depois, peguei o caderno que sempre deixo jogado por aí, sem uso, abri-o em uma página em branco, e escrevi o nome de Antônio no topo.
Abaixo, escrevi sobre contar as histórias dele.
Não sei exatamente o que pretendi fazer com isso. Nunca me considerei uma escritora e, para ser sincera, ainda não me considero. Mas, naquela tarde, senti que essas histórias precisavam ser registradas em algum lugar além das conversas informais; havia algo nelas que não poderia ficar retido apenas na memória de quem as ouviu.
O Sonnenhof apresenta uma característica peculiar, ele não permite que tudo que aconteceu aqui desapareçam facilmente.
Voltei ao trabalho presencial alguns meses depois. As sete e meia da manhã retornaram, assim como a escada cansativa e o corredor apressado antes de sair.
Contudo, o prédio agora se apresenta a mim de uma maneira diferente.
Essa diferença traz um senso de desafio e impulsiona o crescimento.
É diferente, no sentido de que me faz prestar atenção.
Ao encontrar Antônio na escada, cumprimentamo-nos com mais do que um simples aceno. Ao passar pela antiga recepção, observo o balcão de madeira com uma atenção inédita. Quando ouço, tarde da noite, um ruído que não reconheço de imediato, hesito antes de voltar a dormir, apenas para confirmar se é um som que já me é familiar.
E nessas noites, enquanto meu companheiro dorme ao meu lado com a serenidade de quem não carrega as histórias dos vizinhos na mente, fico olhando para o teto e penso em tudo o que o Sonnenhof guarda.
Em tudo o que ainda não me contaram.
Em tudo o que talvez eu nunca devesse descobrir.
E, mesmo assim, quando encontro Antônio, faço sempre a mesma pergunta:
— Tem mais alguma coisa que você queira me contar?
Ele sempre sorri antes de responder.
— Sempre há.